domingo, 22 de julho de 2012

O vigia que veio da China (Parte I)




O vigia que veio da China


Watchman Nee, cujo nome em chinês é Nee To-sheng, nasceu na cidade do Fuchou, em 4 de novembro de 1903. Era filho do Nee Weng-hsiu, um homem de caráter aprazível e Lin Huo-ping, uma mulher de vontade firme. Por motivo de anteriormente não terem tido um homem, sua mãe prometeu a Deus que, se fosse homem, o ofereceria.

No princípio, segundo as tradições familiares, foi chamado Nee Shu-tsu, que significa: «Aquele que proclama os méritos de seus antepassados». Mais tarde, consciente de sua nova missão na vida, decidiu chamar-se Nee Ching-fu («Aquele que adverte ou exorta»), mas lhe pareceu muito contundente. Finalmente, sua mãe lhe propôs To-Sheng, que significa «nota de gongo (ou matraca) que escutada de longe», que era usada pelos sentinelas. Ele se sentia chamado pelo Senhor como um sentinela, para fazer soar seu gongo às pessoas na noite escura. Entre os crentes de fala inglesa o chamaram Watchman Nee, que significa ‘vigia’.

Nee To-Sheng pertencia a uma família de uma rica história cristã, pois seu avô, Nee Ou-cheng foi o primeiro pastor chinês nessa grande região, e um grande expositor da Bíblia. Seu pai, Nee Weng-hsiu foi o quarto de nove filhos homens. Por ser um estudante avantajado, obteve o posto de oficial menor de alfândegas.

Primeiros anos

A infância de To-Sheng transcorreu em um lar de severos princípios. Huo-ping levava as rédeas da casa com mão firme. Inculcava em seus filhos a ordem, a limpeza, e sobre tudo, instruía-lhes na fé. A música era um grande passatempo para os meninos, onde aprenderam muitos hinos e cânticos cristãos.

Na idade de treze anos, To-Sheng ingressou no Ensino médio, na Escola Trindade de Fuchou, de orientação ocidental. Este Colégio era a porta para obter emprego na Missão ou do Estado, e dali os jovens subiam para posições de influência.

Nee era muito bom aluno, e bastante vaidoso. Inclusive sua estatura ultrapassava a da maioria. Por esse tempo, o ‘mandarim’ começou a mudar para o chinês literário clássico nos textos escolares, o que tornou mais fácil o acesso à literatura. Nee se converteu em um ávido leitor. Começou a escrever artigos para os periódicos, e com o dinheiro obtido compra-va bilhetes de loteria. Também gostava muito de cinema.

Quando os ventos da revolução envolveram o país, o lar dos Nee se viu envolvido. Huo-ping participou ativamente da política e dos eventos sociais, afastando-se pouco a pouco do Senhor. Sua casa passou a ser um centro político-social, onde se reuniam as mulheres para jogar cartas.

Chega o dia da fé

Por este tempo ocorreu um fato muito significativo na casa dos Nee. Um dia de janeiro de 1920, Huo-ping encontrou quebrado um caro adorno da casa. Depois de investigar rapidamente, achou que To-Sheng era o culpado. Como este não o admitiu, foi castigado severamente. Mais tarde ela soube que ele era inocente, mas não o fez saber. To-Sheng se encheu de dor e ressentimento para com sua mãe. As relações ficaram quebradas por algum tempo.

Esse mesmo mês chegou à cidade Yu Tsi-tu (Dora Yu), uma missionária muito conhecida, para dirigir duas semanas de reuniões evangelisticas em uma congregação metodista. Nessas reuniões Hou-Ping se reencontrou com o Senhor, e seu lar recebeu imediatamente o impacto desta experiência.

Um dia, enquanto ela tocava e cantava hinos em uma reunião familiar, foi impulsionada pelo Senhor a pedir perdão a seu filho pela injustiça cometida. Este fato, insólito em uma cultura como a China que ensina que os pais nunca se equivocam, tocou o coração de To-Sheng, e o sensibilizou para a fé. Antes que finalizassem as reuniões, este também se entregou ao 
Senhor. Tinha 17 anos de idade.


Preparação para o ministério

Receber ao Senhor e consagrar-se por completo, foram para ele uma só coisa. Anteriormente tinha considerado algo indigno ser um pregador – devido ao triste exemplo dos pregadores chineses contratados pelos estrangeiros. Mas agora não concebia dedicar sua vida a outra coisa que não seja servir a Deus. De modo que começou imediatamente a fazer os acertos necessários.

De todas as disciplinas do colégio, a mais descuidada tinha sido a da Bíblia, tanto que estava acostumado a usar «colas» nos exames. Agora abandonou essa prática e confessou sua falta ao diretor do colégio –com risco de ser expulso e perder o direito a uma bolsa de estudo–. A falta foi-lhe perdoada.

Nos meses seguintes, aproveitando os distúrbios sociais que tornava muito irregular o ano escolar, foi, com a permissão de seus pais, a Shangai para estudar na Escola Bíblica da senhorita Yu. Por um ano se dedicou aos seus estudos, onde aprendeu a receber em seu coração a mensagem da palavra de Deus (e não só no intelecto), e o segredo de confiar somente em Deus para as suas necessidades materiais. Entretanto, ele mesmo, reconhece que aquilo foi um fracasso: «Não passou muito tempo para que ela (Dora Yu), cortesmente, desvinculasse-me do Instituto, com a desculpa de que era-me inconveniente permanecer ali mais tempo. Por causa do meu «bom apetite», de minhas roupas inadequadas e do meu costume de me levantar tarde, a irmã Yu pensou que seria melhor me mandar para casa. Meu desejo de servir ao Senhor sofreu um forte reverso. Embora pensasse que minha vida tinha sido transformada, na verdade ainda restavam muitas outras coisas que deviam ser mudadas».

De retorno a Fuchou, retomou seus estudos regulares, mas com uma nova visão. Por sugestão de uma missionária, elaborou uma lista com os nomes de 70 moços do Colégio e começou a orar sistematicamente por cada um deles, testemunhando-lhes em cada oportunidade que se apresentava. No princípio riam dele, pois sempre levava a Bíblia consigo, e a lia em todo momento. Mas pouco a pouco começaram a converter aqueles companheiros, com exceção de um só. Formou-se assim um grupo de entusiastas evangelistas que testemunhavam na escola e pelas ruas, repartindo tratados, levando cartazes e acompanhados de um sonoro gongo.

Por este tempo, Nee conheceu a M. S. Barber, uma ex-missionária anglicana que agora trabalhava de forma independente, e que vivia nos subúrbios de Fuchou. A srta. Barber, acompanhada de seu compatriota, M. L. S. Ballord, compartilhavam o evangelho entre as mulheres da localidade, e oravam intensamente por um mover de Deus na China. M. S. Barber estava acostumada a ajudar os jovens que procuravam ser guiados pelo Senhor; por algum tempo houve até sessenta jovens recebendo ajuda dela. Ela chegou a ser um verdadeiro conselheiro na vida de To-Sheng, a influência viva maior para ele, comparável só a de T. Austin-Sparks, alguns anos mais tarde.

Um progresso dessa influência se verificou pouco tempo depois, no dia que To-Sheng e sua mãe desceram às águas do batismo para ser batizados por ela. Nee estava acostumado a dizer que foi por meio de uma irmã que ele foi salvo e também foi por meio de uma irmã que ele foi edificado. Mais ainda, ele recebeu muita ajuda de outras duas irmãs mais velhas: Ruth Lee e Peace Wang.

Avivamento entre os jovens

No princípio de 1921 chegou a Fuchou um jovem de nome Wang Tsai (conhecido também como Leland Wang), que aos 23 anos de idade tinha renunciado a seu posto na Marinha para servir ao Senhor totalmente. Brevemente entrou em contato com To-Sheng e seus amigos. Como era um pouco mais velho que eles, e de maior experiência, converteu-se em seu líder. A amizade entre Wang Tsai e To Sheng chegou a ser muito estreita, pois compartilhavam o mesmo zelo evangelistico.

No ano 1922, no lar de Wang Tsai celebraram pela primeira vez A Ceia do Senhor, sem sacerdote nem pastor, com a assistência só de três pessoas: Wang Tsai, sua esposa e To-Sheng. Sentiram tal gozo e liberdade, que começaram a fazê-lo com freqüência. Semanas depois uniram-se a eles a mãe de Nee e outros irmãos.

No final desse mesmo ano começou um verdadeiro avivamento entre os jovens, logo depois da visita à cidade da evangelista Li Yuen-ju. Quando ela se foi, os jovens ministros se encarregaram das pregações. Uns saíam para convidar pelas ruas, e o Espírito Santo atraía a um número cada vez maior de pessoas. A cidade de Fuchou, de 100.000 habitantes, foi grandemente comovida por este movimento espiritual.

Por causa da necessidade, tiveram que alugar uma casa maior. To-Sheng e outro irmão passaram a viver ali, para estar disponíveis para os jovens a toda hora. Em seguida começaram a sair 60 a 80 jovens para outros povos, para pregar, aproveitando os feriados e férias. Sua mensagem era ouvida e respeitada pelos rústicos camponeses, pois eles eram jovens cultos.

As primeiras lições espirituais

Nos dias de sábado, Nee ia ver a Srta. Barber para estudar a Bíblia e ser repreendido. Quando não havia nada nele que merecesse uma repreensão, ela fazia pergunta até encontrar alguma falha, e então o repreendia. Assim, ele recebeu suas mais importantes lições espirituais.

Nee era muito zeloso a respeito de fazer sempre o correto e o justo. Ele fazia parte de um grupo de sete obreiros, que se reuniam tadas as sextas-feiras. Muitas dessas reuniões se tornaram envolvidas por discussões entre Nee e Wang Tsai, quem, segundo Nee, insistia em impor a sua vontade só por ser o mais velho. Outros obreiros, geralmente tomavam partido por Wang Tsai. Nee se sentiu muitas vezes ofendido e procurou luz na irmã Barber. Ela, contrariamente ao que ele esperava, disse-lhe que devia sujeitar-se aos mais velhos, sem lhe dar maiores explicações. Esta dolorosa experiência se repetiu durante 18 meses, e concluiu quando ele se rendeu e aceitou ocupar o segundo lugar.

Nee o explica assim: «Eu era sempre o primeiro aluno tanto em minha classe como da escola. Também queria ser o primeiro no serviço ao Senhor. Por essa razão, quando me tornei o segundo, eu desobedeci. Disse repetidamente a Deus que aquilo era muito para mim. Eu estava recebendo muito pouca honra e autoridade, e todos se alinhavam com meu cooperador de mais idade. Mas eu adoro a Deus e lhe agradeço do profundo do meu coração por tudo isso. Foi o melhor treinamento. Deus desejava que eu aprendesse a obediência, por isso ele dispôs que eu encontrasse muitas dificuldades. Assim, com o tempo, fui enchido de alegria e paz em meu caminho espiritual».

Outra importante lição espiritual que Nee recebeu da srta. Barber foi enfatizar a vida antes que a obra, pois a Deus importa mais o que somos do que o que fazemos para ele. Também lhe advertiu sobre o perigo da popularidade, que se constitui em um instrumento de sedução para os jovens pregadores.

Um episódio familiar ocorrido neste tempo deixou um profundo ensino em Nee. Deus lhe mostrou que durante as férias deveria ir pregar numa ilha infestada de piratas. Aceitou o chamado, e fez os preparativos. Quando tudo estava preparado, e muitos irmãos se comprometeram, seus pais lhe opuseram. O que fazer? Consultou a Deus e sentiu que devia obedecer a seus pais. Embora era o desejo de Deus que fosse pregar na ilha, esse propósito ficava em Suas mãos para seu cumprimento. Como To-Sheng não se sentiu com a liberdade de dar a conhecer as razões de sua deserção, ganhou uma generalizada repulsa por parte dos irmãos. (Ele preferiu que sua reputação fosse abalada para que seus pais não fossem desestimados caso ele explicasse o motivo de ele não ter ido pregar.)

Mais tarde, pôde interpretar essa experiência objetivamente à luz da crucificação. A revelação da vontade de Deus pode ser clara, mas o cumprimento dessa vontade para nós pode ser em forma indireta. «Nossa estima de nós mesmos se alimenta e nutre porque dizemos: Eu estou fazendo a vontade de Deus! e nos leva a pensar que nada deve interferir em nosso caminho. Mas certo dia Deus permite que algo cruze em nosso caminho para rebater essa atitude. Do mesmo modo a cruz de Cristo, atravessa, não na nossa vontade egoísta, mas sim, embora pareça estranho, no nosso zelo e amor pelo Senhor! Isto é muito difícil de aceitar». De fato, naquele momento, não foi capaz de fazê-lo.

Quando Nee concluiu seus estudos no Colégio Trindade, aos 21 anos de idade, teve a satisfação de ser um dos dois melhores alunos – junto a Wang Tse –, e sobre tudo, de ter ganho um grande número de convertidos, tanto no colégio, como na cidade e seus arredores. A criação de uma pequena revista mimeografada, chamada "O Presente Testemunho", cuja primeira tiragem foi de 1400 exemplares, tinha contribuído para o crescimento espiritual dos convertidos e dos obreiros jovens.

Uma desilusão amorosa

Na mesma cidade de Fuchou vivia uma família de sobrenome Chang. O pai, Chang Chuenkuan era um querido amigo cristão, que chegou a ser pastor da Aliança Cristã e Missionária, e parente longínquo do pai de To-Sheng. Seus filhos eram da mesma idade e as duas famílias caminhavam muito bem. A pequena Pin-huei (conhecida também como Charity) andava sempre correndo atrás de To-Sheng. Em suas travessuras e entretenimentos todos os consideravam como o «irmão mais velho».

Quando os jovens cresceram, To-Sheng começou a interessar-se por Pin-huei, sua ex-companheira, que era bonita e inteligente. Entretanto, seus interesses diferiam muito. Enquanto Nee fazia a firme decisão de dedicar-se plenamente a pregação do evangelho, Pin-huei se converteu em uma jovem mundana. Quando Nee lhe compartilhava o evangelho, ela zombava de Deus e dele.

Um dia que To-Sheng lia o Salmo 73:25: «Fora de ti nada desejo na terra», o Espírito de Deus o compungiu porque ele não podia dizer o mesmo. «Sei que tem um desejo consumidor na terra. Deve renunciar ao que sente pela senhorita Chang. Que qualidades tem ela para ser a esposa de um pregador?». Sua resposta foi uma tentativa de fazer um pacto com o Senhor. «Senhor, farei algo por ti. Se quiser que leve suas boas novas às tribos que ainda não foram alcançadas, inclusive no Tibete, estou disposto a ir; mas não posso fazer isto que me pede».
Com este sentimento atado ao seu coração, lançou-se a pregar o evangelho com maior afinco. Por outro lado, Pin-huei se entregou a uma vida de estudo e compromissos sociais.

Pouco tempo depois, ao comprovar que ela não se interessava pelas coisas do Senhor, mas sim persistia em seguir o mundo, decidiu esquecê-la. Foi a sua casa, ajoelhou-se e confiou o assunto de forma firme e definitivamente a Deus, e escreveu sua poesia «Amor sem limites». Era 13 de fevereiro de 1922.



Seu amor, amplo, alto, profundo, eterno,

É na verdade imensurável,
Pois só assim pôde abençoar tanto
A um pecador como eu.
Meu Senhor pagou um preço cruel
Para me comprar e fazer-me dele.
Não posso senão levar a sua cruz com gozo
E lhe seguir firmemente até o fim.
A tudo eu renuncio
Pois Cristo é agora a minha meta.
Vida, morte, o que podem me importar?
Por que tenho que lamentar o passado?
Satanás, o mundo, a carne
Procuram me apartar.
Oh, Senhor, fortalece a sua frágil criatura,
Não aconteça que traga desonra ao seu nome!
(tradução livre)

Entretanto, Deus não havia dito a última palavra. Passariam ainda dez anos antes que este capítulo se fechasse.
Outras lições espirituais

Muitas lições espirituais foram aprendidas por Nee neste tempo. Por exemplo, recebeu um golpe no seu ego ao comprovar que muitas mulheres cristãs analfabetas, conheciam mais ao Senhor do que ele, apesar de todo o seu conhecimento bíblico. «Eu conhecia o livro que elas quase não podiam ler, enquanto que elas conheciam Aquele de quem fala o Livro».

Quanto ao seu sustento, também recebeu um ensino definitivo. Como já tinha deixado o Colégio, deveria pensar em como confiar em Deus para suprir suas necessidades materiais. As missionárias lhe tinham emprestado livros sobre as vidas de fé de Jorge Müller e Hudson Taylor, quem tinha crido inteiramente em Deus. A mesma Margaret Barber era um vivo exemplo disso. Assim, To-Sheng decidiu tomar o mesmo caminho.

Por este tempo teve também uma experiência especialmente dolorosa: por razões que não estão claras, foi excluído da comunhão com os irmãos. A decisão foi comunicada por carta quando ele estava longe. Como é natural, sua primeira reação foi de irritação, mas o Senhor falou em seu coração. Ao chegar à cidade, muitos irmãos lhe esperavam para solidarizar com ele, mas ele lhes disse que o Senhor não lhe permitia defender-se, que abandonaria a cidade para não provocar uma divisão, e que eles deveriam ficar quietos. Nesta situação ele aprendeu a quedar-se de maneira prática a tomar a cruz e seguir ao Senhor.

De um testemunho dado por Nee em outubro de 1936, pode-se deduzir que o motivo pôde ser a diferente ênfase em fazer a obra de Deus, o deles, era evangelístico, e o de Nee era a edificação das igrejas que iam nascendo. Um autor diz que a causa foi que Nee se opunha à ordenação de um deles por um missionário denominacional.

Seja como for, o certo é que, em pouco tempo, muitos deles se arrependeram de tê-lo excluído. Um deles disse: «Agimos muito nesciamente, mas possivelmente estávamos muito influenciados por ciúmes, pois o irmão Nee era muito mais dotado que nós».

Quando Nee era ofendido por alguém, não guardava rancor. Ao contrário, estava acostumado a dizer: «Os irmãos que pecam são como meninos que caem em um atoleiro com barro. Seus vestidos e cabelos se sujam. Mas dêem um banho neles e estarão novamente limpos. No futuro, todos os irmãos e irmãs serão pedras preciosas transparentes na Nova Jerusalém».

Outro forte golpe recebeu Nee em janeiro de 1925, quando foi sugerido por seu amigo Wang Tsai que não assistisse à convenção de Fuchou, porque as críticas à obra se centravam nele. Este pedido abalou sua paz em Cristo e o abateu numa profunda desilusão. Entretanto, recebeu do Senhor as seguintes palavras: «Deixa seus problemas comigo. Vai e prega as boas novas!».

Em uma dessas saídas para pregar, teve uma maravilhosa experiência com o povo de Mei-fuja, que Nee relata em seu livro «Sentem-se, Andem, Estejam firmes». Foi a esse povo com um pequeno grupo de seis jovens. Os vizinhos ali tinham anualmente uma celebração em honra ao seu deus Ta-wang. Eles confiavam tanto em seu deus, desta maneira não precisavam crer em Cristo. Um dos jovens cristãos desafiou ao deus Ta-wang, e Deus lhes deu uma maravilhosa vitória, humilhando ao ídolo e abrindo o caminho para a fé.

Um ministro preparado

Watchman Nee nunca freqüentou uma escola teológica ou Instituto bíblico. Mas estava consciente de que Deus queria servos preparados, por isso se dedicou a estudar e meditar na Palavra de Deus, e a ler extensamente tanto comentários bíblicos como biografias de destacados servos de Deus. Sua capacidade era tal, que podia compreender, e memorizar muito material de leitura em muito pouco tempo. Ele facilmente podia detectar os temas de um livro com uma rápida olhada.




Nee encontrou muita ajuda pessoal nos escritos de Andrew Murray e F. B. Meyer, sobre a vida prática de santidade e libertação do pecado. Também leu sobre Charles Finney, Evan Roberts e o avivamiento de Gales; pesquisou nos livros de Otto Stockmayer e Jessie Penn-Lewis sobre a alma e o espírito, e a vitória sobre o poder satânico. Seguindo o exemplo de Govett, Panton e Darby, Nee viu a necessidade de procurar uma forma mais primitiva de adoração que a oferecida pelas denominações, as que nesse tempo ofereciam já um triste espetáculo de frouxidão e religiosidade morta.



Por meio de M. Barber, Nee se familiarizou com os livros de Madame Guyon, D. M. Panton, Robert Govett, G. H. Pember, William Kelly, C. H. Mackintosh, entre outros.

No começo de seu ministério, ele investia um terço de seus ganhos em suas necessidades pessoais, um terço para ajudar a outros, e o terço restante para comprar livros. Ele fez um acordo com algumas livrarias de livros usados de Londres de que sempre que eles recebessem algum livro dos autores que lhe interessavam, que os remetessem imediatamente.

Ele chegou a ter uma coleção de mais de 3.000 volumes dos melhores livros cristãos. Quando ainda era um jovem, o quarto de Nee estava quase cheio de livros. Havia livro no chão, e uma pilha em cada lado da cama, deixando apenas espaço para deitar-se. Muitos comentavam que ele estava enterrado em livros. Entretanto, sua principal leitura sempre foi a Bíblia, que lia sistematicamente cada dia, até completar ao menos uma leitura do Novo Testamento ao mês.

Apesar de sua saúde ser precária, repartia seu tempo entre seus estudos, a obra, e a edição de sua pequena Revista cristã. A revista era publicada em forma irregular à medida que Deus lhe enviava dinheiro por meio de pequenas ofertas, e era distribuída sem peso. Seu nome começou a ser conhecido, e já recebia convites para dar seu testemunho e pregar.

Sua mensagem era muito nova para a sua época, pois expunha de forma singela e clara que o único caminho para Deus é por meio da obra consumada de Cristo. Muitos cristãos se esforçavam por obter a salvação com base nas suas próprias obras, o que, a princípio, não se diferenciava muito do budismo. Pregava também que para os crentes não era suficiente receber o perdão dos pecados e a segurança da salvação, pois só representava o ponto de partida. Era um evangelho para os crentes.

Nos próximos anos, o peregrinar espiritual de Nee o levou a ministrar a estudantes de Colégios e Seminários, a colaborar com a revista Luz Espiritual, dirigida por Li Yuen-ju, a trocar o nome de sua própria revista Avivamento, por o de O Cristão, e a estabelecer em Shangai a sua base de operações.

Enfrentando uma grande prova

Entretanto, o que abalou profundamente sua vida neste tempo foi um problema de saúde. Os problemas tinham começado em 1924 com apenas uma leve dor no peito. O médico que o examinou lhe disse que era uma tuberculose, por isso seria necessário um prolongado descanso. Passados alguns meses de cuidados especiais, a enfermidade não cedia. Um novo exame indicou que a enfermidade tinha avançado. O prognóstico do médico foi muito desalentador: «Tem tuberculose avançada em seus pulmões. Volte para sua casa, descanse e coma mantimentos nutritivos. É tudo o que pode fazer. Pode ser que melhore.» Todas as tardes tinha febre e pelas noites transpirava e não conseguia dormir. Para pregar tinha que realizar um imenso esforço, que o deixava exausto.

Tinha tido tantos planos, tantas esperanças de grandes coisas. Agora Deus lhe dizia que não. Começou a examinar-se. Surgiu nele um desejo de ser puro diante de Deus, confessando pecados, procurando assim uma explicação do que ele pensava ser o aborrecimento de Deus.

Quando retornou a Fuchou por causa de assuntos familiares, Nee teve uma experiência inesquecível. Por esses dias andava muito debilitado e doente; seu aspecto era bastante deplorável para um jovem como ele. Encontrou-se na rua com um antigo professor do Colégio Trindade. Por tradição, os estudantes chineses têm em alta estima os seus professores, voltando para eles para lhes agradecer cada vez que obtinham algum êxito. O professor o convidou para tomar chá, e censurou o seu fracasso: «Tínhamos um alto conceito de você na escola e tínhamos esperanças de que conseguiria algo importante. Não andou nem um centímetro para frente? Não progrediste? Não tem carreira, nada? Nee, por um momento, sentiu-se muito envergonhado. Mas de repente, segundo conta, «soube o que era ter o Espírito de glória sobre mim. Podia levantar os olhos e dizer: Senhor, te louvo porque tenho escolhido o melhor caminho. Para meu professor era um desperdício total servir ao Senhor Jesus; mas essa é a finalidade do evangelho: entregar tudo a Deus».

Mas sua enfermidade não cedia, e sua mãe, Fujo-ping teve a impressão, ao lhe ver, que lhe faltava muito pouco tempo. Nesses dias recebeu nova luz em 2 Corintios, a carta autobiográfica de Paulo, sobre o vaso de barro, que lhe animou e consolou em sua própria fraqueza.

Dentro das forças que escassamente possuía, se dedicou a tarefa de terminar um livro que tinha começado pouco tempo antes, sobre o homem de Deus, que descrevia em forma conscienciosa o espírito, alma e corpo. Logo depois de escrever alguns capítulos, o abandonou por considerá-lo muito teórico; mas, em vista do pouco tempo que restava, decidiu tentar terminá-lo. Parecia-lhe que seria uma perda não compartilhar a respeito das suas experiências espirituais antes de morrer.

Graças à oração persistente e o apoio de numerosos irmãos e irmãs, conseguiu concluir em quatro meses o primeiro volume do Homem Espiritual. Para escrever, sentava-se em uma cadeira de encosto alto e apertava seu peito contra a escrivaninha para aliviar a dor. Da irmã Ruth Lee recebeu ajuda para a revisão literária do livro, e o publicou em Shangai. Alguns anos depois, em junho de 1928, Nee conseguiu terminar o restante.

Foi o primeiro livro que escreveu e o último, pois todos os seus outros livros são recopilações de mensagens orais. Mais tarde, Nee não aceitou fazer novas reimpressões do Homem Espiritual, porque lhe parecia muito perfeito e sistemático. Pensava que os leitores corriam o perigo de um entendimento intelectual das verdades, sem sentir a necessidade do Espírito Santo. Além disso, a parte sobre a luta espiritual enfatizava só o aspecto individual, porém mais tarde teve mais luz para ver que era um assunto do Corpo de Cristo e não do indivíduo.

Depois de concluído o livro, Nee orou a Deus: «Agora permite a seu servo partir em paz». Nesses dias, sua enfermidade piorou a tal ponto que pelas noites suava copiosamente, e não conseguia dormir. Era apenas pele e ossos. Sua voz estava rouca. Algumas irmãs se alternavam para atendê-lo. Uma enfermeira que o visitou disse: «Nunca vi um doente com uma condição tão lamentável». Um irmão telegrafou às igrejas de diferentes lugares, avisando que já não havia esperança, que não precisavam orar mais por ele.

Enquanto orava ao Senhor em seu leito de enfermidade, Nee recebeu três palavras do Senhor: «O justo viverá pela fé» (Rom. 1:17); «Porque pela fé estão firmes» (2 Co. 1:24); e «Porque por fé andamos» (2 Co. 5:17). Nee creu que essas palavras significavam sua saúde. Assim, lutando contra sua incredulidade, e contra os sussurros de Satanás, levantou-se com grande dificuldade, pôs sua roupa que fazia quase seis meses que não usava, e se pôs em pé, repetindo as palavras recebidas.

Sentiu que o Senhor lhe dizia que fosse à casa da irmã Ruth Lee. Ali, a vários dias, havia um grupo de irmãos e irmãs orando e jejuando por sua saúde. Quando abriu a porta e viu a escada lhe pareceu a mais alta que tinha visto em sua vida (pois estava em um segundo piso). «Disse a Deus: –conta Nee– «Ainda que me disse que ande, farei-o, ainda que a conseqüência seja a morte. Senhor, não posso andar; por favor, sustente-me com a sua mão». Apoiando-me no corrimão desci degrau por degrau, novamente suando frio. À medida que descia seguia clamando «andar por fé», e a cada degrau orava: «OH Senhor, você é quem me faz caminhar». À medida que descia os 25 degraus, era como se estivesse, pela fé, com minhas mãos nas mãos do Senhor. Ao chegar ao final, senti-me fortalecido e caminhei com rapidez para a porta do fundo. Ao chegar à casa da irmã Lee, golpeei a porta como fez Pedro (At. 12:12-17), e ao entrar, sete dos oito irmãos e irmãs puseram seus olhos em mim, sem fazer nem dizer nada, e a seguir, todos se sentaram ali quietos por quase uma hora, como se Deus tivesse aparecido entre os homens. Ao mesmo tempo, eu me senti cheio de ações de graças e de louvores ao Senhor. Então lhes relatei tudo o aconteceu no transcurso de minha cura. Cheios de alegria até o júbilo no espírito, louvamos em alta voz a maravilhosa obra de Deus... No domingo seguinte, falei três horas de uma plataforma».

Mais tarde confessaria que durante aqueles longos dias de prostração, ele recebeu luz para ver as diretrizes que deveria ter a obra que Deus lhe tinha chamado para realizar: obra de literatura, reuniões para «vencedores», edificação das igrejas e treinamento de jovens.
Entretanto, mesmo quando foi curado milagrosamente da tuberculose, padeceu de uma angina de peito por quarenta e cinco anos, da qual não foi curado. Freqüentemente, ele sofria de fortes dores, até no meio das pregações, que lhe obrigavam a apoiar-se no púlpito. Deus permitiu dessa maneira que ele vivesse em contínua dependência de Deus para desenvolver o seu ministério.

Crescimento e influências

No princípio de 1928 Nee arrendou uma casa na rua Wen Teh Li, em Shangai, que foi a sede da obra a partir de então. Ali teve lugar nesse mesmo ano a primeira Conferência de Shangai, em um pequeno salão para 100 pessoas.

Em maio de 1930 teve a tristeza de saber que Margaret Barber tinha partido com o Senhor. Muitas vezes depois, Nee teria que reconhecer que dela aprendeu as mais valiosas lições espirituais em sua vida. Na Bíblia que lhe legou estava a seguinte inscrição: «OH Deus, me dê uma completa revelação de ti mesmo», e em outro lugar: «Não quero nada para mim mesma, quero tudo para o meu Senhor». Ela morreu tal como sempre viveu: sem um centavo em sua bolsa, mas rica em Deus. «Como pobre, mas enriquecendo a muitos ...»

Outros homens de Deus, estrangeiros, iriam ser um grato alento e edificação para Nee. Pimeiramente foi C. H. Judd, e depois Thornton Stearns. Mais tarde também o seria Elizabet Fischbacher.

T. Stearns era catedrático da Universidade de Chefú, que tinha um grupo de oração e estudo bíblico composto por professores e alunos dessa universidade. Nee foi convidado em 1931 a dirigir uma série de reuniões para eles, com grande êxito. Muitos jovens se agregaram à fé.

Comunhão com os Irmãos

Em novembro de 1930, Nee e os irmãos conheceram Carlos R. Barlow, e através dele, os principais expoentes do grupo dos Irmãos de Londres (da facção «exclusivista»). Entre eles surgiu uma entusiasta comunhão, que originou em uma viagem de Nee a Londres e aos Estados Unidos.

Na Inglaterra foi muito bem recebido, e com estranheza, por tratar-se de um jovem chinês que mostrava grande maturidade espiritual. Nee teve grande admiração por sua erudição bíblica, mas se impacientou ao ver sua arrogância e sua inclinação pelos longos debates teológicos.

A comunhão ficou impedida rapidamente pelo excessivo zelo dos Irmãos, que se incomodaram porque Nee participou em Londres da Mesa do Senhor com outros irmãos. Isto trouxe consigo uma longa e triste série de conversações, que derivaram, posteriormente, na ruptura dos Irmãos.

O dia do gozo

Em 1934 concluiu a longa espera de Nee por uma esposa. Para sua surpresa, Chan Pin-huei voltou-se para o Senhor em Wen Teh Li, depois de acabar seus estudos de inglês na Universidade de Yenching. Era uma jovem muito culta, formosa, e agora, muito humilde e temente a Deus. Depois de longas considerações e muita oração, decidiu pedi-la em matrimônio. A oposição não foi pequena, tanto de alguns familiares dela –por casar-se com um «pregador desprezado»–; como dos irmãos, que quase o idolatravam, ao julgar que um homem de oração como ele não deveria preocupar-se com coisas tais como sexo e a procriação.

Em 19 de outubro desse ano, depois de concluir a quarta Conferência de Vencedores em Hangchou, casaram-se, no mesmo dia do aniversário matrimonial dos pais de Nee. Deram graças a Deus rodeados de irmãos, e cantando o hino que escreveu a sua amada dez anos antes.

(Continua...)

Fonte: http://www.aguasvivas.ws/revista/41/espigando1.htm