quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Quantas versões da bíblia você tem?


Quantas versões da bíblia você tem?


Amados irmãos,
Difícil dizer o quanto esse vídeo me tocou. Ao assistir esse vídeo hoje pela manhã fui muito edificado e impactado pelo testemunho da igreja em Kymial. Valorizamos nós as tantas versões, paráfrases e interpretações, sem contar as traduções parciais, que temos na língua portuguesa? Percebemos o quão valoroso é o acesso que temos à Palavra escrita? Podemos à qualquer ora por qualquer preço (desde R$1,00, se não menos) comprar quantas bíblias quisermos e recebermos em casa ou buscarmos na loja, nada nos impede.



A intenção deste post não é incentivar vocês a comprarem mais e mais bíblias, não é movimentar comercialmente, a ideia é que tenhamos compromisso com A Palavra de Deus e com o Deus da Palavra, como diz o amado pastor Ciro Zibordi.
Amados, possamos nós aprender com esses irmãos a valorizar o preço que muitos mártires pagaram para que a Palavra escrita fosse guardada durante esses 20 séculos da História da Igreja, ou melhor, desde antes de Cristo pelos escribas e doutores da Lei.

O conteúdo da Bíblia é tanto extensivo como inclusivo; os dois aspectos principais desse conteúdo são verdade e vida. A verdade nos traz a revelação e o conhecimento de todas as realidades no universo, tais como a realidade de Deus, a realidade do homem, a realidade do universo, a realidade das coisas da era atual, da era vindoura e da era eterna e, em particular, a realidade do Cristo designado por Deus e da igreja escolhida por Ele. Vida é Deus vindo a nós a fim de ser nossa vida para que obtenhamos a regeneração, o crescimento, a transformação e a conformação à imagem de Cristo, que expressa Deus, para que nos tornemos a expressão de Deus.


Vivemos uma realidade onde pouco valorizamos a bíblia por sempre te-la conosco mas esse povo ao saber que receberiam bíblias traduzidas para sua língua fizeram uma grande festa. Existem lugares onde traduzir bíblias para a lingua de origem do povo é uma missão quase impossível mas Deus tem agido e operado maravilhas, veja esse vídeo e compartilhe com seus amigos e contatos. Essa missão é quase impossível, mas juntos nós podemos.
Convém lembrar que, se você recebe as postagens por email, deve acessar o blog para poder assistir o vídeo, clique aqui


Tradução feita pela missionaria Rosa Kidd que levou 15 anos aprendendo a língua. A tradução foi concluída em março de 2010. Kimyal se encontra em Korupun, no oeste de Papua, a tribo tem mais ou menos 4 mil habitantes onde 98%(3.920 pessoas) falam apenas a língua nativa de Kimyal.

Daniel Freire

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Terminologia convencional versus terminologia bíblica


Terminologia convencional versus terminologia bíblica
"Boa parte da confusão existente no testemunho cristão vem da terminologia que os teólogos criaram para simples verdades da Bíblia. F. B. Hole disse certa vez que a teologia moderna pegou muitos termos das Escrituras e os esvaziou de seu sentido bíblico, dando depois a esses termos significados inventados pelos homens para fundamentarem seus próprios sistemas teológicos. Quando comparamos essas ideias com a Palavra de Deus, vemos que elas estão distantes da verdade. IGREJA Um dos exemplos mais evidentes de como a terminologia convencional criou um novo sentido para um termo bíblico é "a igreja". A maioria dos cristãos usa este termo para se referir a um edifício, aonde os cristãos vão quando se congregam para adoração. Essas pessoas dizem "Vamos à igreja" ao se referirem à sua reunião nesse edifício. Todavia, a Bíblia nunca utiliza a palavra "igreja" desta maneira. A Bíblia fala da igreja [em Grego eclésia] como um grupo de pessoas redimidas que foram "chamadas para fora" de entre judeus e gentios, por meio de sua crença no evangelho. Essas pessoas compõem o corpo de Cristo e um dia irão reinar com Ele, como Sua noiva, sobre este mundo. A Bíblia mostra claramente que a igreja não é um edifício material, pois ela diz que Cristo amou a igreja e Se entregou à morte por ela (Ef 5:25-26). Fica claro que isso não poderia ser dito de um mero edifício construído por mãos humanas. A Palavra de Deus também nos diz que a igreja costumava ser encontrada na casa de algumas pessoas (Rm 16:5; 1 Co 16:19; Cl 4:15; Fl 2). Ela diz que a igreja tinha ouvidos para receber instrução (At 11:22, 26); que tinha poder de discernimento para saber a vontade do Senhor (At 15:22); que podia orar (At 12:5), ser saudada (Rm 16:5), e ser perseguida (At 8:1; 1 Co 15:9). A partir dessas referências é óbvio que a igreja é um grupo de pessoas salvas pela graça de Deus, e não um mero edifício de pedras e madeira. Uma irmã das Antilhas, que havia aprendido algo sobre a verdade da igreja, foi questionada pelo "Ministro" de uma denominação local da razão de ela não "ir mais à igreja". Sua resposta foi: "A única igreja que encontro na Bíblia é aquela que se lançou ao pescoço de Paulo e o beijou", referindo-se a Atos 20:37. Então, apontando para o edifício no final da rua, continuou: "Se aquela coisa ali se lançar ao meu pescoço, ela vai me matar!". Os cristãos também usam erroneamente este termo para descrever uma seita na igreja. Eles falam de alguém ser membro de uma igreja, quando o que querem dizer é ser membro de uma seita denominacional (ou não denominacional) na igreja. A verdade é que as Escrituras não falam de sermos membros de qualquer outra coisa que não seja o corpo de Cristo. Todo crente no Senhor Jesus Cristo é um membro desse corpo (1 Co 12:12, 27). Também ouvimos cristãos falando de pessoas "se afiliarem à igreja", quando estão se referindo na realidade a pessoas que se unem a uma seita na igreja. A. H. Rule disse certa vez: "A igreja não é uma associação à qual os homens podem voluntariamente se ligar, ou dela se desligarem conforme a sua vontade, como acontece no caso das seitas". A Bíblia não ensina que devemos "nos fazer membros" de uma igreja. Só existe uma igreja na Bíblia: a ela o Senhor (e não nós) acrescenta pessoas quando elas creem nEle para salvação (At 2:47; 5:14; 11:24; 1 Co 6:17). Uma vez perguntaram a um irmão, que entendia esta verdade, a que igreja ele pertencia. Ele respondeu: "Pertenço à igreja da qual ninguém é capaz de se fazer membro!" Evidentemente a pessoa que fez a pergunta ficou bastante surpresa, e indagou: "Então como vocês conseguem os novos membros?" Ele respondeu: "Ah, é o Senhor quem os acrescenta pelo Espírito quando são salvos, mas as pessoas não podem acrescentar-se a si mesmas por sua própria vontade" (1 Co 12:13). A única coisa à qual nos poderíamos "juntar", e deveríamos buscar fazê-lo, é à comunhão dos santos (At 9:26), mas não podemos fazer a nós mesmos membros da igreja. Há quem às vezes pergunte: "Quem é que dirige a sua igreja?". As pessoas pensam que vamos falar o nome de algum "Ministro". Todavia, a Cabeça da igreja mencionada na Bíblia está no céu – é o próprio Cristo! (Cl 1:18) Também costumamos ouvir pessoas dizendo: "Nossa igreja ensina tal e tal coisa..." Todavia, não existe qualquer pensamento na Palavra de Deus de que a igreja ensine alguma coisa. Tal ideia é totalmente humana. Se os homens criassem uma organização com certas doutrinas e credos formulados segundo o padrão de sua seita, as pessoas até que não estariam erradas se dissessem que aquela organização ensina. Mas uma organização de homens não é a igreja! A verdade é que a igreja não é um corpo legislativo que estabelece regras, leis e doutrinas. Ela não ensina, mas é ensinada! E isso é feito por indivíduos com dons que são levantados pelo próprio Cristo, a Cabeça da igreja, que está hoje ressuscitado no céu (At 11:26). SANTO Outro exemplo da confusa terminologia existente na cristandade é encontrado no significado da palavra "santo". Muitos cristãos pensam em um santo como alguém que vive ou viveu uma vida exemplar. Porém a Bíblia usa o termo para descrever todos os crentes – até mesmo aqueles em Corinto, que eram notórios por suas divisões e carnalidade (1 Co 3:1-4). Eles estavam associados ao mal moral (1 Co 5) e alguns professavam uma má doutrina que atacava os próprios fundamentos do cristianismo (1 Co 15). Não existe um grupo de cristãos na Bíblia que esteja numa situação mais precária, exceto talvez pelos gálatas. Mesmo assim, apesar de todo o fracasso deles, a Palavra de Deus chama os coríntios de "santos"! (1 Co 1:2) Com base nisso fica claro que a Bíblia define "santo" de um modo diferente daquele normalmente usado pelas pessoas nos dias de hoje. William Kelly disse que na mente da maioria das pessoas ser santo é ser algo mais do que um mero cristão. Mas, na realidade, o que acontece é que um cristão é algo mais do que um santo! Ele disse: "Muitos diriam que minha doutrina é estranha, por todos nesta região serem considerados cristãos, porém pouquíssimos em todo o mundo serem considerados santos – e talvez nenhum deles seja visto assim até chegar ao céu. Mas está muito claro – não há nada mais evidente – que um cristão é um santo, e muito mais que isso!". Santo é alguém "santificado". Ser santificado, posicionalmente falando, é ter sido "colocado à parte" ou "separado" por Deus para bênção. Isso acontece quando nascemos de novo. Aqueles que são nascidos de Deus foram colocados à parte ou separados da massa da humanidade que caminha rumo à destruição. Todos os crentes desde o início dos tempos são santos. Por isso podemos chamar de "santos" aqueles que viveram nos tempos do Antigo Testamento (Dt 33:3; 1 Sm 2:9; 2 Cr 6:41 etc.). Todavia eles não eram cristãos. Apenas os crentes a partir de Pentecostes e até o Arrebatamento estão nessa posição diante de Deus. Um "cristão" é alguém que creu "no evangelho da vossa salvação" e, por conseguinte, foi selado com o Espírito, tendo assim sido feito parte da igreja (Ef 1:13). Ele foi deste modo colocado em uma posição muito mais abençoada (estando ligado a Cristo, a Cabeça da igreja) do que um santo do Antigo Testamento. O cristão é um santo, mas é muito mais que isso – ele é membro do corpo de Cristo (1 Co 12:12-13) e filho de Deus (Rm 8:14-15; Gl 4:5-7; Ef 1:5). Estas são coisas que os santos do Antigo Testamento não eram. (Existe também a santificação prática, que tem a ver com o aperfeiçoamento da santidade na vida do crente – que significa tornar nossa vida praticamente consistente com nossa posição – Jo 17:17; 1 Ts 4:3-4; 5:23; Hb12:14; 2 Co 7:1). O espaço não permite que continuemos discorrendo e enumerando todos os diversos termos que são erroneamente usados por cristãos atualmente. Examinaremos alguns deles à medida que avançarmos com nosso tema." Trecho do livro "A ORDEM DE DEUS" de Bruce Anstey

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

SEGURANÇA, CERTEZA E GOZO da Salvação

SEGURANÇA, CERTEZA E GOZO
Da Salvação Eterna


Quando estamos numa estação ferroviária ouvimos, com certa frequência, a seguinte pergunta: "Em que classe você está viajando?" Você, leitor, com toda a certeza está de viagem - de viagem para a Eternidade - e pode ser que neste momento esteja muito próximo da estação final: a Morte. Permita-me, então, que lhe pergunte: "Nesta jornada pela vida, em que classe você está viajando?"

Neste caso podemos pensar em três diferentes classes, e vou explicar quais são a fim de que você possa responder à minha pergunta como que diante de Deus; sim, diante dAquele a Quem certamente todos nós temos que prestar contas.





Na PRIMEIRA CLASSE viajam, por assim dizer, os que estão salvos e sabem disso.

Na SEGUNDA CLASSE viajam aqueles que não têm certeza da sua salvação, mas que, no entanto, desejam tê-la.












Na TERCEIRA CLASSE viajam aqueles que não estão salvos e nem tampouco se interessam pelo assunto.










Volto a perguntar: "Em qual destas classes você está viajando?" Oh, como é importante que você possa responder claramente a esta pergunta!

Há pouco tempo atrás, numa viagem que fiz de trem, no momento em que o trem se preparava para partir da estação, vi chegar um homem que se precipitou ofegante para dentro do vagão onde eu me encontrava.
- Isto é que é correr! - exclamou um dos passageiros.
- É verdade - respondeu o homem respirando com dificuldade - mas ganhei quatro horas e por isso valeu a pena.

"Ganhei quatro horas"! Ao ouvir estas palavras não pude deixar de pensar comigo mesmo: "Se para ganhar quatro horas valeu a pena fazer um tão grande esforço, quanto mais para ganhar a Eternidade!" E, contudo, existem milhares de pessoas, que embora sejam bastante prudentes em tudo o que se refere aos seus interesses mundanos, parecem não ter um mínimo de bom senso quando alguém lhes fala de seus interesses eternos!

Apesar do infinito amor de Deus para com os pecadores, manifestado na morte de Jesus Cristo na cruz; apesar do Seu declarado ódio ao pecado; da evidente brevidade da vida humana; dos terrores do julgamento depois da morte; da terrível perspectiva de sofrer insuportáveis remorsos ao achar-se no inferno, separado para sempre de Deus; apesar de tudo isso, muitos correm para o seu triste fim tão descuidados como se não existisse nem Deus, nem morte, nem julgamento, nem céu, nem inferno! Que Deus tenha misericórdia de você, leitor, se você for uma dessas pessoas, e que neste momento Ele abra os seus olhos para que você reconheça o perigo que é continuar despreocupadamente no caminho que conduz à perdição eterna.

Caro leitor, quer você acredite ou não, a sua situação é bem crítica. Não deixe, portanto, de enfrentar o quanto antes a questão da Eternidade e do destino que você terá nela, pois qualquer demora poderá ser fatal. Lembre-se de que o costume de deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é sempre prejudicial e neste caso poderá ter consequências desastrosas. Quão verdadeiro é o ditado: "A estrada do MAIS TARDE conduz à cidade do NUNCA"! Rogo, pois, encarecidamente, querido leitor, que não continue a viajar por um caminho tão enganoso e perigoso, pois está escrito na Bíblia Sagrada: "Eis aqui agora o dia da salvação" (2 Co 6.2).

Talvez você diga: - Não sou indiferente aos interesses da minha alma; longe de mim tal pensamento, mas a minha maior inquietação exprime-se por outra palavra: INCERTEZA. Por esta razão encontro-me entre os passageiros da segunda classe de que falou.

Pois bem, amigo leitor, tanto a indiferença como a incerteza são filhas da mesma mãe: a incredulidade. A indiferença provém da incredulidade no que diz respeito ao pecado e às suas consequências presentes e eternas. A incerteza, com sua consequente inquietação, provém da incredulidade acerca do infalível remédio que Deus oferece a você. Ora, estas páginas são dirigidas especialmente àqueles que, como você, desejam ter a completa e incontestável certeza da salvação.

Até certo ponto posso compreender bem a inquietação de sua alma e estou convencido de que quanto mais sinceramente interessado você estiver neste assunto, maior será a sua avidez para ter a certeza de que está real e verdadeiramente salvo da ira divina dirigida contra o pecado. "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mt 16.26), disse o Senhor Jesus.

Suponhamos que o filho de um pai amoroso encontra-se viajando de navio. Chega, entretanto, a notícia de haver naufragado, numa costa estrangeira, o navio em que ele se encontrava. Quem poderá descrever a angústia que a incerteza produz no ânimo daquele pai enquanto não se certificar, por um testemunho fidedigno, de que o seu filho está salvo? Suponhamos ainda uma outra hipótese. Numa noite escura e tempestuosa você está seguindo por um caminho desconhecido. Ao chegar a uma encruzilhada você encontra alguém e lhe pergunta qual é o caminho que conduz ao povoado aonde deseja chegar, e ele, indicando um dos caminhos, responde: "Parece-me que é aquele, mas não tenho certeza; espero não estar enganado". Você ficaria satisfeito com uma resposta tão vaga e indecisa? Decerto que não. Você precisaria ter certeza, do contrário cada passo que desse naquela direção só aumentaria a sua inquietação. Por isso, não admira que tenha existido homens que, sentindo-se pecadores expostos à ira divina, não conseguiram mais dormir, e nem mesmo comer, enquanto a questão da salvação de suas almas não estivesse resolvida. Podemos sentir muito pela perda de nossos bens, ou talvez até mesmo pela perda de nossa saúde, mas o mais penoso de tudo seria a perda de nossa alma.

Pois bem, amigo leitor, há três coisas que, com o auxílio do Espírito Santo, desejo mostrar a você, as quais, na própria linguagem das Sagradas Escrituras são as seguintes:

1. O CAMINHO DA SALVAÇÃO (Atos 16.17).

2. O CONHECIMENTO DA SALVAÇÃO (Lucas 1.77)

3. A ALEGRIA DA SALVAÇÃO (Salmo 51.12).


Estas três coisas, embora intimamente ligadas, baseiam-se, todavia, cada uma delas, em verdades diferentes, de modo que é muito possível uma pessoa saber qual é o caminho da salvação, sem contudo ter o conhecimento de estar pessoalmente salva; ou mesmo conhecer que está salva, sem possuir contudo a alegria que deve acompanhar esse conhecimento. Falaremos, pois, em primeiro lugar do

CAMINHO DA SALVAÇÃO

A primeira parte da Bíblia Sagrada, o Antigo Testamento, está repleta de figuras ou símbolos de coisas espirituais, como diz o apóstolo Paulo: "Tudo o que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito" (Rm 15.4). Vejamos, pois, qual o sentido espiritual de uma dessas figuras contidas no Antigo Testamento, no livro de Êxodo, onde se lêem estas palavras em relação à lei dada por Deus, por intermédio de Moisés, ao seu povo na antiguidade: "Porém tudo o que abrir a madre da jumenta, resgatarás com cordeiro; e se o não resgatares, cortar-lhe-ás a cabeça: mas todo o primogênito do homem entre teus filhos resgatarás" (Êx 13.13). Com estas palavras na memória, voltemos, em pensamento, a uns três mil anos atrás e vamos supor que nos encontramos perto de dois homens que estão conversando seriamente, um deles sacerdote de Deus e o outro um simples e pobre camponês israelita. Nossa atenção é atraída pelos gestos e pela maneira de ambos, que demonstra estarem tratando de um assunto importante. Ao observá-los, descobrimos que o assunto diz respeito a um jumentinho que está ao lado deles.


- Vim perguntar - diz o pobre israelita - se não pode ser feita uma exceção a meu favor, só desta vez. Este animal é o primogênito de uma jumenta que tenho e, embora eu saiba o que diz a lei de Deus a seu respeito, espero que haja misericórdia e seja poupada a vida do jumentinho. Sou apenas um pobre em Israel e não posso pensar em perder este animal.

O sacerdote, porém, responde com firmeza:

- A lei de Deus é clara e não admite dúvidas: "TUDO o que abrir a madre da jumenta, resgatarás com cordeiro; e se o não resgatares, cortar-lhe-ás a cabeça". Por que, então, você não traz um cordeiro?

- Ah, senhor, não tenho nenhum cordeiro! - replica o homem.

- Então vá comprar um e traga-o aqui; caso contrário o jumento terá que ser morto.

- Ai de mim! - exclama o pobre homem - neste caso todas as minhas esperanças estão perdidas, pois sou muito pobre e não posso de maneira alguma comprar um cordeiro.

Mas, durante a conversa, aproxima-se uma terceira pessoa que, ouvindo a triste história do homem, volta-se para ele e lhe diz bondosamente:

- Não fique desanimado, pois posso resolver o seu problema. Temos em casa um cordeiro que é muito querido de todos os de minha família, pois não tem nem uma única mancha nem defeito algum, e nunca se extraviou; vou já buscá-lo.

Pouco depois o homem está de volta, trazendo o cordeiro que em seguida é morto e o seu sangue derramado. O sacerdote volta-se então para o pobre israelita e lhe diz:

- Agora você pode levar o seu jumentinho para casa e ficar certo de que não precisará matá-lo. Graças ao seu amigo, o cordeiro morreu no lugar dele e, portanto, o jumentinho fica, com toda a justiça, totalmente livre.

Ora, querido leitor, acaso você não vê nisto um quadro divino da salvação do pecador? Em consequência dos seus pecados a justiça de Deus exige a sua morte, isto é, o seu justo castigo. A única alternativa que resta a você é a morte de um substituto aprovado por Deus. Você jamais poderia, de si mesmo, providenciar o necessário para sair da desesperada situação em que se encontra. Deus, porém, na Pessoa de Seu amado Filho, supriu, Ele próprio, um Substituto: "Eis o Cordeiro de Deus", disse João aos seus discípulos ao contemplarem o bendito e imaculado Salvador. "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29).

E, com efeito, Jesus subiu ao Calvário, "levado como a ovelha para o matadouro" (At 8.32), e ali "padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus" (1 Pd 3.18). "O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (Rm 4.25). De modo que Deus, ao justificar o ímpio que crê em Jesus; ao absolvê-lo de toda a culpa, em nada sacrifica as justas exigências do Seu trono dirigidas contra o pecado. Ele é absolutamente justo em assim justificar aquele que tem fé em Jesus (Romanos 3.26). Bendito seja Deus, por nos dar um tal Salvador e uma tal Salvação!

Caro leitor, você crê no Filho de Deus? Se você responder "Sim! Como um pecador condenado tenho encontrado nEle Aquele em Quem posso confiar com toda a segurança. Creio verdadeiramente nEle!", neste caso posso lhe assegurar que, perante Deus, o grande valor do sacrifício e morte de Cristo, conforme Deus o aprecia, aproveita tanto à sua alma como se você mesmo tivesse sofrido, em si mesmo, a condenação merecida.

Oh, que admirável salvação é esta! É grande, é digna de Deus! Por ela Deus satisfaz os desejos do Seu bondoso coração, dá glória ao Seu amado Filho, e assegura a salvação do pobre pecador que nEle crê. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que determinou que o Seu próprio Filho completasse essa grande obra e recebesse por ela todo o louvor; e que nós, pobres criaturas culpadas, não somente alcançássemos toda a bênção por meio da fé nEle, mas também gozássemos eternamente a bem-aventurada companhia dAquele que assim nos abençoou! "Engrandecei ao Senhor comigo, e juntos exaltemos o Seu nome" (Sl 34.3).

Mas, talvez você pergunte ansiosamente: "Como é que ainda não tenho completa certeza da minha salvação, embora já não confie mais em mim mesmo, nem nas minhas obras, mas só, única e inteiramente em Cristo e na Sua obra? Como é que, se um dia os sentimentos do meu coração me dizem que estou salvo, no dia seguinte me vejo assaltado de dúvidas? Sou como um navio surpreendido pela tempestade, sem poder achar ancoradouro seguro em nenhuma parte". Ah! eis aí o seu engano, e vou explicar o por quê. Porventura você já ouviu falar de algum capitão que procurasse ancorar seu navio lançando a âncora para dentro do próprio navio? Nunca! Ele sempre a lança para fora!

Vejamos, então, o seu caso. Pode ser que você já esteja completamente convencido de que a segurança de sua alma, quanto ao julgamento divino, depende somente da morte de Cristo; porém você imagina, ao mesmo tempo, que são os seus sentimentos que hão de lhe dar a CERTEZA da sua participação nos benefícios dessa morte. Vamos olhar novamente para a Bíblia, pois quero que você veja nela o modo como, pela Sua Palavra, Deus nos dá:

O CONHECIMENTO DA SALVAÇÃO

Antes, porém, de procurarmos o versículo que você deve ler cuidadosamente, o qual nos ensina COMO UM CRENTE PODE SABER QUE TEM A VIDA ETERNA, permita-me citá-lo de maneira errada, ou seja, da maneira como muitos parecem entendê-lo: "Estes alegres sentimentos vos dou a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus". Compare agora isto com a bendita e inalterável Palavra divina, e permita Deus que você possa se firmar nela, rejeitando todos os pensamentos vãos. Ora, o versículo de que falei é o versículo 13 do capítulo 5 da Primeira Epístola de João, que na Bíblia (Versão Almeida Atualizada) está escrito assim: "ESTAS COISAS VOS ESCREVI a fim de SABERDES que TENDES a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus".

A história sagrada do Antigo Testamento nos relata um acontecimento que explica exatamente o modo pelo qual nós podemos ter a inabalável certeza da salvação de que o versículo acima nos fala. Esse acontecimento é a saída do povo de Israel da terra do Egito, o que lemos no capítulo 12 do livro de Êxodo. Como podiam os primogênitos do povo de Israel saber, com toda a certeza, que estavam seguros durante aquela terrível noite da Páscoa, quando Deus derramava sobre o Egito o Seu tremendo castigo? Vamos supor que nos encontramos no Egito nessa solene ocasião, e que visitamos duas das casas dos israelitas. Na primeira casa encontramos toda a família aterrorizada e cheia de receios, dúvidas e incertezas:

- Qual é o motivo de tanta palidez e medo?- perguntamos.

- Ah! - responde o primogênito, - o anjo da morte vai atravessar a terra do Egito esta noite, e não sei o que será de mim quando chegar a meia-noite. Só depois que o anjo exterminador tiver passado por nossa casa, e a hora do juízo tiver terminado, é que saberei que estou salvo, mas antes disso não sei como posso ter a certeza de que nada me há de acontecer. Os nossos vizinhos do lado dizem que têm certeza da sua segurança, mas acho que isso é ter muita presunção. O melhor que eu posso fazer é passar esta longa e terrível noite esperando que tudo me saia bem.

- Porém - inquirimos - o Deus de Israel não providenciou um meio de segurança para o Seu povo?>

- Certamente que sim - responde ele - e nós já usamos esse meio. O sangue de um cordeiro de um ano, cordeiro sem defeito algum, já foi devidamente espargido com um molho de hissopo sobre a verga e ombreiras da porta; mas apesar disso, não temos ainda plena certeza de que eu esteja seguro.

Deixemos agora esta pobre gente, atribulada e cheia de dúvidas, e entremos na casa ao lado. Que notável contraste se apresenta logo à nossa vista! A paz e o sossego brilham em todos os rostos. Ali estão todos, de cajado na mão, a comer o cordeiro assado e já prontos para caminhar.

- Qual é o motivo de tão grande tranquilidade em noite tão solene? - perguntamos.

- Ah! - respondem todos - estamos aguardando as ordens de Jeová, nosso Deus, para sairmos de viagem, quando então daremos as últimas despedidas ao chicote do tirano e à cruel escravidão do Egito.

- Mas esperem! Vocês estão se esquecendo de que à meia-noite o anjo de Deus vai percorrer a terra do Egito, ferindo de morte os primogênitos...?

- Sabemos disso muito bem, mas o nosso filho já está perfeitamente seguro porque já espargimos o sangue na porta, segundo a vontade e ordem do nosso Deus.

Mas também os vizinhos fizeram o mesmo, - respondemos, - e contudo estão todos tristes, porque não têm nenhuma certeza de segurança.

- Ah - diz o primogênito com firmeza - mas nós não temos somente o sangue espargido: temos também uma confiança absoluta na Palavra inabalável do nosso Deus. Deus disse: "Quando Eu vir o sangue, passarei por vós". Portanto Deus fica satisfeito VENDO O SANGUE lá fora, e nós aqui dentro ficamos descansando na SUA PALAVRA. O sangue espargido é a base da nossa segurança. A palavra proferida por Deus é a base da nossa certeza de salvação. Porventura há alguma coisa que possa tornar-nos mais seguros do que o sangue espargido, ou que possa dar-nos mais certeza do que a Palavra proferida por Deus? Nada, absolutamente nada. Eis a razão da nossa paz!

Ora, leitor, qual dessas duas famílias você acha que estava mais ao abrigo da espada do anjo da morte? Talvez você diga que era a segunda, onde todos gozavam daquela tranquila confiança. Você está enganado: AMBAS ESTAVAM IGUALMENTE SEGURAS, pois a segurança de ambas dependia, não dos sentimentos dos que estavam dentro da casa, mas sim da maneira como Deus apreciava o sangue espargido fora da casa, sobre a porta. Se você quiser ter a certeza da sua própria salvação, leitor, não dê atenção aos seus sentimentos, mas sim ao testemunho infalível da Palavra de Deus. "Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim TEM a vida eterna" (Jo 6.47).

A fim de esclarecer mais este ponto, vou me valer de um simples exemplo tirado da vida cotidiana. Certo lavrador, não tendo pastagens suficientes para o seu gado, e ouvindo dizer que uma bela pastagem próxima à sua casa está para alugar, comunica ao proprietário seu interesse em arrendá-la. Passa-se algum tempo sem que receba resposta do proprietário. Enquanto isso, um vizinho visita o lavrador e lhe diz:

- Estou certo de que ele alugará a pastagem a você. Você não se lembra de que no último ano o proprietário enviou-lhe um presente de caça, e não recorda também da maneira como o cumprimentou quando passou por sua casa há alguns dias?" Eis agora o lavrador todo cheio de esperanças!

No dia seguinte encontra-se com outro vizinho, que durante a conversa lhe diz:

- Receio que você não poderá usar aquela pastagem. Ouvi dizer que o sr. Fulano também a quer, e você sabe como ele é amigo do proprietário.

Esta notícia faz desvanecer as esperanças do pobre lavrador; e assim continua ele; um dia muito esperançoso, outro dia cheio de dúvidas. Por fim recebe uma carta pelo correio e, ao reconhecer a letra do proprietário da pastagem, abre-a com viva ansiedade; mas à medida que vai lendo, o sobressalto vai se transformando em satisfação que se lhe retrata no rosto.

- Está tudo resolvido,- exclama, dirigindo-se à sua esposa; - acabaram-se as dúvidas e os receios! O proprietário diz que me arrenda a pastagem por todo o tempo que eu quiser, e em condições muito favoráveis. Isto me basta; agora já não me importo mais com a opinião de ninguém, seja lá quem for; a palavra do proprietário assegura-me a posse.

Quantas pobres almas há por aí, às quais acontece o mesmo que aconteceu ao lavrador; andam agitadas e perturbadas porque escutam as opiniões dos homens, ou se ocupam com os pensamentos e sentimentos dos seus próprios corações, ao passo que, se com sinceridade recebessem a Palavra de Deus, como sendo a Palavra de Deus, as dúvidas que os atribulam cederiam imediatamente seu lugar à CERTEZA.

As Escrituras dizem que aquele que crê está salvo, e que aquele que não crê está condenado. Não pode haver dúvida, nem em um caso nem em outro, pois é Deus Quem o diz, e para o crente de coração sincero a Palavra de Deus resolve tudo. "Porventura diria Ele, e não o faria? ou falaria, e não o confirmaria?" (Nm 23.19). Deus tem falado, e o crente, satisfeito, pode dizer:

Mais provas não exijo eu
Nem mais demonstração;
Já sei que Cristo padeceu
Para minha salvação.


Mas, talvez haverá alguém que ainda pergunte: "Como hei de saber com certeza se tenho a verdadeira fé?" A esta pergunta temos que responder com outra pergunta: "Você tem fé no verdadeiro Salvador: isto é, no bendito Filho de Deus?" A questão não é saber se a sua fé é muita ou pouca, forte ou fraca, mas se a Pessoa em quem você colocou a sua confiança é digna dela. Há alguns que se agarram a Cristo com uma energia semelhante à do homem que se afoga. Há outros, porém, que apenas tocam, por assim dizer, na orla do Seu vestido; mas os primeiros não estão mais seguros do que os últimos. Todos fizeram a mesma descoberta, isto é, que em si mesmos não há nada em que possam confiar, mas que podem todavia fiar-se seguramente em Cristo, podem fiar-se tranquilamente na Sua Palavra, e podem, portanto, descansar com toda a confiança na eterna eficácia da Sua obra perfeita. É isto que se entende por crer nEle, e é Sua a promessa: "Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim, tem a vida eterna" (Jo 6.47).

Portanto, cuidado leitor; não ponha a sua confiança nas suas boas intenções ou no seu arrependimento e penitências, ou em quaisquer outros atos religiosos, nem mesmo nos seus piedosos sentimentos, nem na educação moral que possa ter recebido, nem em quaisquer outras coisas semelhantes. É até possível que você confie firmemente em algumas destas coisas, ou em todas elas juntas, e contudo venha a perder-se eternamente; porém a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, por mais fraca que seja, salva eternamente, ao passo que a fé, mesmo que forte, em outra coisa ou pessoa qualquer é apenas o fruto de um coração enganado.

Deus, no Evangelho, apresenta a você o Senhor Jesus Cristo, e diz: "Este é o meu Filho amado, em Quem Me comprazo" (Mt 3.17). É como se Deus dissesse: "Ainda que você não possa confiar em si mesmo, pode contudo confiar sem receio em Jesus". Bendito, mil vezes bendito Senhor Jesus! Quem não há de confiar em Ti e exaltar o Teu nome?

- Creio deveras nEle, - disse-me um dia uma jovem, com certa tristeza, - todavia não me atrevo a dizer que estou salva, com receio de dizer talvez uma mentira.

Esta jovem era filha de um negociante de gado em uma pequena vila, e seu pai havia ido, naquele mesmo dia, à feira e ainda não tinha voltado.

- Suponhamos agora - disse-lhe eu - que quando seu pai voltar você lhe pergunte quantas ovelhas comprou hoje, e ele responda: "Dez". Suponhamos ainda que logo em seguida entre um freguês e lhe pergunte: "Quantas ovelhas seu pai comprou hoje?" Porventura você responderia: "Não me atrevo a dizer, com receio de mentir"?

Nisto, a mãe da menina, que escutava nossa conversa, disse com certa indignação: - Isso seria o mesmo que dizer que seu pai é mentiroso.

Ora, querido leitor, você não percebe que essa menina, embora bem intencionada, estava realmente a fazer do Senhor Jesus um mentiroso, quando dizia: "Eu creio no Filho de Deus, porém não me atrevo a dizer que tenho a vida eterna, porque receio dizer talvez uma mentira"? Que incredulidade!

- Mas, - alguém poderá dizer, - como posso ter a certeza de que realmente creio? Tenho me esforçado muitas vezes para crer, e procurado ler no meu íntimo se o tenho conseguido; mas quanto mais penso na minha fé, a mim menos parece que eu creia.

Meu amigo, a maneira como você olha para estas coisas não poderia ter outro resultado, e o fato de você dizer que se esforça para crer demonstra claramente que não compreende a questão. Deixe-me, portanto, apresentar-lhe outro exemplo para explicar melhor este ponto.

Suponhamos que você se encontre certa noite em sua casa e entre alguém dizendo que o chefe da estação da estrada de ferro acaba de morrer esmagado por um trem. Acontece, porém, que esse indivíduo que lhe traz a notícia há muito tempo é tido em toda a vizinhança como um grande mentiroso. Você acreditaria nele, ou se esforçaria para acreditar nele?

- Decerto que não! - você me responderá prontamente.

- E por que não?

- Porque eu o conheço bem demais para saber que é um mentiroso.

- Mas, - pergunto - como é que você sabe que não crê no que ele disse? Será que para isso você precisou examinar sua fé?

- Não; é porque sei que o homem que me dá a notícia não é digno de confiança.

Pouco depois entra um outro indivíduo e diz:

- O chefe da estação foi hoje atropelado por um trem e ficou esmagado.

Após ele sair, escuto você dizer prudentemente:

- Agora estou quase crendo que seja verdade, pois conheço este homem desde pequeno e pelo que me lembre, só me enganou uma vez.

- Ora, - pergunto eu de novo, - será que desta vez você sabe que quase crê por ter examinado sua própria fé?

- Não; é porque tenho em conta o caráter de quem me dá a notícia.

Este homem acaba de sair de sua casa e entra um terceiro. Este, que é um amigo que lhe inspira a mais absoluta confiança, não faz mais do que confirmar a notícia. Desta vez então você diz:

- Agora é que creio, João; por ser você quem está me afirmando isto, eu posso crer.

Insisto ainda na minha pergunta, que como você há de recordar, é apenas um eco da sua:

- Como é que você pode SABER agora que crê tão positivamente no que disse o seu amigo?

- É porque conheço bem a pessoa e o caráter dela - você me responde. - Nunca, em toda a sua vida, me enganou, e não a julgo capaz de fazê-lo.

Pois bem, é justamente por esta razão que eu também sei que creio no Evangelho: é por ele me ser mandado pelo próprio Deus. O apóstolo João diz: "Se recebemos o testemunho dos homens, o TESTEMUNHO DE DEUS é maior; porque o testemunho de Deus é este, que de Seu Filho testificou... quem a Deus não crê mentiroso O fez: PORQUANTO NÃO CREU NO TESTEMUNHO que Deus de Seu Filho deu" (1 Jo 5.9,10). E Paulo diz: "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça" (Rm 4.3).

Em certa ocasião uma pessoa ansiosa pela salvação disse a um servo de Deus:

- Ah! senhor, eu não posso crer! -, ao que lhe respondeu o pregador com muito acerto:

- É verdade?... E em QUEM você não pode crer? - Esta simples pergunto foi suficiente para lhe abrir os olhos. Até ali tinha pensado que a fé era alguma coisa misteriosa que deveria sentir dentro de si, e que sem senti-la não poderia ter certeza da sua salvação. Mas afinal a fé do crente faz com que ele olhe, não para si mesmo, mas, ao contrário, para Cristo e para a Sua obra consumada no Calvário, e o leve a aceitar confiadamente o testemunho que um Deus fiel dá acerca de ambos e assim alcança a paz. Quando uma pessoa se volta para o sol, a sua sombra fica para trás; assim também quando nos voltamos para Cristo glorificado no céu, não mais nos preocupamos conosco.

Fica pois demonstrado que a bendita PESSOA do Filho de Deus ganha a nossa confiança; a Sua OBRA CONSUMADA nos dá segurança eterna; e a PALAVRA de Deus, acerca de todo o que nEle crê, nos dá a certeza inalterável de tal segurança. Encontramos em Cristo e na Sua obra o caminho da Salvação; e na Palavra de Deus o conhecimento da Salvação.

- Mas - dirá talvez o leitor, - se tenho a vida eterna, como é que tenho sentimentos tão inconstantes, perdendo com frequência toda a minha alegria e consolação, achando-me sem paz e quase tão triste como antes de ter sido convertido?

Esta pergunta nos leva a tratar de nosso terceiro ponto que é:

O GOZO DA SALVAÇÃO

A Palavra de Deus nos ensina que, enquanto o crente é salvo da ira futura pela obra de Cristo, e tem a certeza da salvação pela Palavra de Deus, ele conserva a consolação e alegria pelo poder do Espírito Santo que habita em si (1 Co 6.19).

Convém lembrar que toda pessoa salva ainda tem em si o que as Sagradas Escrituras chamam de "carne", isto é, a natureza pecaminosa com que nascemos, e que começa a se manifestar desde a nossa mais tenra infância. O Espírito Santo no crente resiste à "carne", e fica entristecido sempre que ela se manifesta por pensamentos, palavras ou obras. Quando o crente procede de um modo digno do Senhor, o Espírito Santo produz em sua alma o seu bendito fruto: amor, gozo, paz, etc. (veja Gálatas 5.22). Porém quando ele procede de um modo carnal e mundano, o Espírito Santo é entristecido e, como consequência, falta, na vida do crente, este fruto espiritual.

Permita-me, leitor, expor sua situação, como crente, da seguinte forma:

A obra de Cristo e a sua salvação: Ficam em pé ou caem juntamente;

O seu comportamento e o seu gozo: Ficam em pé ou caem juntamente.

Se fosse possível a obra de Cristo cair por terra, o que graças a Deus nunca poderá acontecer, a sua salvação cairia juntamente com ela. Porém, quando por qualquer descuido você não tiver um comportamento próprio de um cristão, (o que pode muito bem acontecer), você ficará também sem desfrutar o gozo.

Em Atos dos Apóstolos, está escrito a respeito dos primeiros cristãos que andavam "no TEMOR DO SENHOR e CONSOLAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO" (At 9.31); e também "os discípulos estavam cheios de ALEGRIA e do ESPÍRITO SANTO" (At 13.52). Depois de sermos convertidos, o nosso gozo espiritual será sempre proporcional ao caráter espiritual do nosso comportamento.

Você percebe agora, leitor, em que consiste o seu engano? Você tem confundido duas coisas diversas, que são: a segurança da salvação, e o gozo que resulta dela. Se porventura você entregar-se à sua vontade-própria, ao seu mau gênio, ou aos prazeres mundanos, etc., o Espírito Santo Se entristecerá e logo você perderá sua alegria espiritual e talvez pense ter perdido também a sua segurança. Repito, porém, mais uma vez:

A sua SEGURANÇA depende da obra que Cristo fez por você.

A sua CERTEZA depende da Palavra que Deus dirige a você.


O seu GOZO depende de você não entristecer o Espírito Santo que habita em você.

Se você, sendo filho de Deus, entristecer o Espírito Santo, a sua comunhão com Deus Pai e com o Seu bendito Filho ficará, como consequência, logo interrompida; e enquanto você, arrependido, não reconhecer e confessar o seu pecado a Deus, aquela comunhão e aquele gozo não lhe serão restaurados.

Suponhamos que uma criança qualquer faça uma maldade. Sentindo que praticou o mal e desconfiando que seus pais já saibam do ocorrido, ela mostra logo em seu rosto os evidentes sinais de perturbação. Meia hora antes ela estava alegre a gozar juntamente com os pais de um passeio no jardim, agradando-se naquilo que agradava a eles também, e gozando aquilo que eles também desfrutavam. Em outras palavras, ela estava em comunhão com eles; tinham todos os mesmos sentimentos. Mas isso cessou num momento, e como criança travessa e desobediente, nós a encontramos agora em um canto, toda triste. Os pais, notando sua tristeza, perguntam-lhe pelo motivo, dizendo-lhe que, se tiver feito qualquer maldade, deve confessar tudo e eles a perdoarão; mas o orgulho e a teimosia a mantém ali calada.

Onde está agora a alegria que essa criança tinha há meia hora? Desapareceu completamente. Por que? Porque se interrompeu a comunhão entre ela e seus pais, devido à sua maldade. Mas o que é feito do parentesco que, há meia hora, existia entre ela e seus pais? Porventura desapareceu isto também? Acaso cessou ou se interrompeu? Certamente que não.

O seu PARENTESCO depende do seu nascimento.

A sua COMUNHÃO depende do seu comportamento.

Passado, porém, algum tempo, ela sai do canto, onde tinha permanecido, e já arrependida e com o coração quebrantado, humilha-se e confessa toda a sua falta, do princípio ao fim, de modo que os pais percebem que ela odeia agora, tanto quanto eles, a sua desobediência e travessura. Então, tomando-a nos braços, cobrem-na de beijos. A sua alegria restabelece-se, porque também a sua comunhão com os pais está agora restabelecida.

Lemos que o rei Davi, tendo em certa ocasião pecado gravemente, se arrependeu e voltou-se para Deus orando: "Torna a dar-me a alegria da tua salvação" (Sl 51.12). Notemos que não pediu que lhe fosse restituída a salvação, mas a alegria da salvação.

Imaginemos agora o caso de outra maneira. Suponhamos que enquanto a criança se encontrava no canto, soluçando e sem dar provas de querer reatar comunhão com seus pais, se ouvisse um grito de "Fogo!" O que iria ser da criança? Porventura seus pais a deixariam naquele canto para ser consumida pelo fogo que devora a casa? Impossível! Seria até mais provável que ela fosse a primeira pessoa que os pais tirariam para fora de casa e poriam a salvo. Todos devem saber perfeitamente que o amor de parentesco é uma coisa, e que o gozo da comunhão é outra inteiramente diferente.

Ora, quando um crente cai em pecado, a sua comunhão com Deus Pai fica por algum tempo interrompida, e falta-lhe o gozo até que, com o coração contrito, se volte para o Pai e Lhe confesse os seus pecados. Então, confiando na Palavra de Deus, sabe que está de novo perdoado; porque a Sua Palavra claramente diz que: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça" (1 Jo 1.9).

Assim, pois, ó filho querido de Deus, lembre-se sempre destas duas importantes verdades: que não há nada tão forte como o LAÇO DE PARENTESCO; e nada há tão frágil como o LAÇO DA COMUNHÃO. Todas as forças e todas as maquinações da terra e do inferno reunidas não podem quebrar o primeiro, ao passo que basta apenas um pensamento impuro, ou uma palavra leviana, para quebrar imediatamente o segundo.

Se porventura você tiver alguma vez a sua alma atribulada, humilhe-se perante Deus, e examine a sua consciência. E quando você tiver descoberto o ladrão, o pecado que lhe roubou a alegria, traga-o para a luz da presença de Deus; isto é, confesse o seu pecado a Deus, seu Pai, e julgue-se a si mesmo, pelo seu descuido e pela falta de vigilância da sua alma que, assim, deixou entrar às escondidas o inimigo. Mas não confunda nunca, NUNCA, a sua segurança com o seu gozo.

Não imagine, todavia, que o julgamento de Deus é menos severo contra o pecado do crente, do que contra o do incrédulo. Ele não tem dois modos diferentes de tratar com o pecado. Seria impossível a Deus passar por alto, sem julgar, tanto os pecados do crente como os do incrédulo que rejeita ao Seu precioso Filho. Há, porém, entre os dois casos a seguinte diferença:

O pecado do crente foi previsto por Deus, havendo-o lançado sobre Cristo, o Cordeiro divino, quando Este foi crucificado no Calvário. Ali, de uma vez para sempre, foi levantada a grande questão criminal da sua culpa, recaindo o castigo, que o crente merecia, sobre o seu bendito Substituto. "Levando Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pd 2.24). O incrédulo, porém, que rejeita ao Senhor Jesus Cristo, há de sofrer, ele próprio, as consequências eternas dos seus pecados no lago de fogo.

Ora, quando um crente comete uma falta, a questão criminal do pecado não pode ser suscitada novamente contra ele, porque o próprio Jesus, constituído agora o Juiz de todos, é Quem a resolveu de uma vez para sempre sobre a cruz; porém a questão da comunhão é levantada dentro da sua alma pelo Espírito Santo, todas as vezes que o crente O entristece.

Permita-me que, em conclusão, me sirva de outro exemplo. Imaginemos uma noite serena e magnífica, com a lua brilhando com o seu maior esplendor. Um homem está olhando atentamente para um lago profundo, em cuja superfície a lua se reflete admiravelmente e, dirigindo-se a um amigo que está ao seu lado, lhe diz:

- Como a lua está linda esta noite, tão cheia e brilhante!

Porém, apenas acaba de falar, seu companheiro deixa cair uma pedra dentro do lago e logo o primeiro exclama:

- Que é isto? a lua fez-se em pedaços, e os seus fragmentos estão batendo uns contra os outros na maior confusão!

- Que absurdo! - responde seu companheiro. - Olhe para cima e você verá que a lua não mudou em coisa alguma. A superfície da água do lago, que a reflete, é que sofreu mudança, ficando agitada.

Amigo crente, aplique a você mesmo este simples exemplo. O seu coração é como o lago. Quando você não concede nele lugar para o mal, o bendito Espírito de Deus revela a você as perfeições e glórias de Cristo, para sua consolação e gozo. Mas no exato momento em que você acolhe em seu coração um mau pensamento, ou que de seus lábios escapa uma palavra ociosa, sem ser logo julgada, o Espírito Santo começa, por assim dizer, a alterar a superfície do lago, e a sua felicidade e gozo se desvanecem fazendo com que você fique inquieto e perturbado até que, com espírito quebrantado diante de Deus, Lhe confesse o pecado que tem sido a causa da sua perturbação. Aí então ficará restaurado o sossego de seu espírito, e você desfrutará de novo o gozo da comunhão com Deus.

Enquanto o seu coração se sente assim intranquilo, porventura você acha que a OBRA DE CRISTO SOFREU ALGUMA MUDANÇA? Isto jamais poderá acontecer; e por conseqüência também a realidade da sua salvação não sofreu mudança. Mudou a PALAVRA DE DEUS? É claro que não. Então permanece inabalável a certeza da sua salvação. O que foi que mudou então? A AÇÃO DO ESPõRITO SANTO em você. Ele, ao invés de lhe mostrar as glórias do Senhor Jesus, e de assim encher o seu coração com o sentimento do valor da Pessoa e da obra de Cristo, Se vê na necessidade de deixar essa preciosa ocupação para encher a sua consciência com o sentimento do seu próprio pecado, sua fraqueza e sua falha. Ele o privará de sua consolação e de seu gozo enquanto você mesmo não se julgar, reprovando o mal que Ele julga e reprova. Porém, quando isto acontece, restabelece-se novamente a sua comunhão com Deus. Que, pela graça do Senhor, tenhamos sempre uma santa vigilância sobre nós mesmos, a fim de não entristecermos "o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção" (Ef 4.30).

Querido leitor, por mais fraca que seja a sua fé, fique certo de que o bendito Senhor em Quem você tem depositado sua confiança jamais mudará. "Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e ETERNAMENTE" (Hb 13.8). A OBRA de Cristo consumada jamais mudará: "tudo quanto Deus faz durará ETERNAMENTE: nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve tirar" (Ec 3.14). A PALAVRA por Deus pronunciada jamais mudará. "Secou-se a erva, e caiu a sua flor: mas a palavra do Senhor permanece PARA SEMPRE" (1 Pd 1.24,25).

Assim, pois, o alvo da nossa fé, o fundamento da nossa esperança, e a base da nossa certeza, são igualmente perduráveis. Com confiança então podemos já cantar: 

Ó Deus e Pai, Te agradecemos
A paz, perdão e Teu amor;
Com gratidão reconhecemos
Que temos parte em Teu favor.


Permita-me, pois, leitor, que pergunte a você uma vez mais: "Em que classe você está viajando?" Eleve a Deus o seu coração e dê-Lhe já, sem demora, a sua resposta.

"Quem a Deus não crê mentiroso o fez: porquanto não creu no testemunho que Deus de Seu Filho deu" (1 Jo 5.10). "Aquele que aceitou o Seu testemunho, esse confirmou que DEUS É VERDADEIRO" (Jo 3.33).

Querido leitor, meu desejo é que a alegre certeza de possuir esta tão grande salvação encha o seu coração e domine toda a sua vida, agora e até que Jesus venha.

George Cutting (+ 1934)

domingo, 22 de julho de 2012

O vigia que veio da China (Parte I)




O vigia que veio da China


Watchman Nee, cujo nome em chinês é Nee To-sheng, nasceu na cidade do Fuchou, em 4 de novembro de 1903. Era filho do Nee Weng-hsiu, um homem de caráter aprazível e Lin Huo-ping, uma mulher de vontade firme. Por motivo de anteriormente não terem tido um homem, sua mãe prometeu a Deus que, se fosse homem, o ofereceria.

No princípio, segundo as tradições familiares, foi chamado Nee Shu-tsu, que significa: «Aquele que proclama os méritos de seus antepassados». Mais tarde, consciente de sua nova missão na vida, decidiu chamar-se Nee Ching-fu («Aquele que adverte ou exorta»), mas lhe pareceu muito contundente. Finalmente, sua mãe lhe propôs To-Sheng, que significa «nota de gongo (ou matraca) que escutada de longe», que era usada pelos sentinelas. Ele se sentia chamado pelo Senhor como um sentinela, para fazer soar seu gongo às pessoas na noite escura. Entre os crentes de fala inglesa o chamaram Watchman Nee, que significa ‘vigia’.

Nee To-Sheng pertencia a uma família de uma rica história cristã, pois seu avô, Nee Ou-cheng foi o primeiro pastor chinês nessa grande região, e um grande expositor da Bíblia. Seu pai, Nee Weng-hsiu foi o quarto de nove filhos homens. Por ser um estudante avantajado, obteve o posto de oficial menor de alfândegas.

Primeiros anos

A infância de To-Sheng transcorreu em um lar de severos princípios. Huo-ping levava as rédeas da casa com mão firme. Inculcava em seus filhos a ordem, a limpeza, e sobre tudo, instruía-lhes na fé. A música era um grande passatempo para os meninos, onde aprenderam muitos hinos e cânticos cristãos.

Na idade de treze anos, To-Sheng ingressou no Ensino médio, na Escola Trindade de Fuchou, de orientação ocidental. Este Colégio era a porta para obter emprego na Missão ou do Estado, e dali os jovens subiam para posições de influência.

Nee era muito bom aluno, e bastante vaidoso. Inclusive sua estatura ultrapassava a da maioria. Por esse tempo, o ‘mandarim’ começou a mudar para o chinês literário clássico nos textos escolares, o que tornou mais fácil o acesso à literatura. Nee se converteu em um ávido leitor. Começou a escrever artigos para os periódicos, e com o dinheiro obtido compra-va bilhetes de loteria. Também gostava muito de cinema.

Quando os ventos da revolução envolveram o país, o lar dos Nee se viu envolvido. Huo-ping participou ativamente da política e dos eventos sociais, afastando-se pouco a pouco do Senhor. Sua casa passou a ser um centro político-social, onde se reuniam as mulheres para jogar cartas.

Chega o dia da fé

Por este tempo ocorreu um fato muito significativo na casa dos Nee. Um dia de janeiro de 1920, Huo-ping encontrou quebrado um caro adorno da casa. Depois de investigar rapidamente, achou que To-Sheng era o culpado. Como este não o admitiu, foi castigado severamente. Mais tarde ela soube que ele era inocente, mas não o fez saber. To-Sheng se encheu de dor e ressentimento para com sua mãe. As relações ficaram quebradas por algum tempo.

Esse mesmo mês chegou à cidade Yu Tsi-tu (Dora Yu), uma missionária muito conhecida, para dirigir duas semanas de reuniões evangelisticas em uma congregação metodista. Nessas reuniões Hou-Ping se reencontrou com o Senhor, e seu lar recebeu imediatamente o impacto desta experiência.

Um dia, enquanto ela tocava e cantava hinos em uma reunião familiar, foi impulsionada pelo Senhor a pedir perdão a seu filho pela injustiça cometida. Este fato, insólito em uma cultura como a China que ensina que os pais nunca se equivocam, tocou o coração de To-Sheng, e o sensibilizou para a fé. Antes que finalizassem as reuniões, este também se entregou ao 
Senhor. Tinha 17 anos de idade.


Preparação para o ministério

Receber ao Senhor e consagrar-se por completo, foram para ele uma só coisa. Anteriormente tinha considerado algo indigno ser um pregador – devido ao triste exemplo dos pregadores chineses contratados pelos estrangeiros. Mas agora não concebia dedicar sua vida a outra coisa que não seja servir a Deus. De modo que começou imediatamente a fazer os acertos necessários.

De todas as disciplinas do colégio, a mais descuidada tinha sido a da Bíblia, tanto que estava acostumado a usar «colas» nos exames. Agora abandonou essa prática e confessou sua falta ao diretor do colégio –com risco de ser expulso e perder o direito a uma bolsa de estudo–. A falta foi-lhe perdoada.

Nos meses seguintes, aproveitando os distúrbios sociais que tornava muito irregular o ano escolar, foi, com a permissão de seus pais, a Shangai para estudar na Escola Bíblica da senhorita Yu. Por um ano se dedicou aos seus estudos, onde aprendeu a receber em seu coração a mensagem da palavra de Deus (e não só no intelecto), e o segredo de confiar somente em Deus para as suas necessidades materiais. Entretanto, ele mesmo, reconhece que aquilo foi um fracasso: «Não passou muito tempo para que ela (Dora Yu), cortesmente, desvinculasse-me do Instituto, com a desculpa de que era-me inconveniente permanecer ali mais tempo. Por causa do meu «bom apetite», de minhas roupas inadequadas e do meu costume de me levantar tarde, a irmã Yu pensou que seria melhor me mandar para casa. Meu desejo de servir ao Senhor sofreu um forte reverso. Embora pensasse que minha vida tinha sido transformada, na verdade ainda restavam muitas outras coisas que deviam ser mudadas».

De retorno a Fuchou, retomou seus estudos regulares, mas com uma nova visão. Por sugestão de uma missionária, elaborou uma lista com os nomes de 70 moços do Colégio e começou a orar sistematicamente por cada um deles, testemunhando-lhes em cada oportunidade que se apresentava. No princípio riam dele, pois sempre levava a Bíblia consigo, e a lia em todo momento. Mas pouco a pouco começaram a converter aqueles companheiros, com exceção de um só. Formou-se assim um grupo de entusiastas evangelistas que testemunhavam na escola e pelas ruas, repartindo tratados, levando cartazes e acompanhados de um sonoro gongo.

Por este tempo, Nee conheceu a M. S. Barber, uma ex-missionária anglicana que agora trabalhava de forma independente, e que vivia nos subúrbios de Fuchou. A srta. Barber, acompanhada de seu compatriota, M. L. S. Ballord, compartilhavam o evangelho entre as mulheres da localidade, e oravam intensamente por um mover de Deus na China. M. S. Barber estava acostumada a ajudar os jovens que procuravam ser guiados pelo Senhor; por algum tempo houve até sessenta jovens recebendo ajuda dela. Ela chegou a ser um verdadeiro conselheiro na vida de To-Sheng, a influência viva maior para ele, comparável só a de T. Austin-Sparks, alguns anos mais tarde.

Um progresso dessa influência se verificou pouco tempo depois, no dia que To-Sheng e sua mãe desceram às águas do batismo para ser batizados por ela. Nee estava acostumado a dizer que foi por meio de uma irmã que ele foi salvo e também foi por meio de uma irmã que ele foi edificado. Mais ainda, ele recebeu muita ajuda de outras duas irmãs mais velhas: Ruth Lee e Peace Wang.

Avivamento entre os jovens

No princípio de 1921 chegou a Fuchou um jovem de nome Wang Tsai (conhecido também como Leland Wang), que aos 23 anos de idade tinha renunciado a seu posto na Marinha para servir ao Senhor totalmente. Brevemente entrou em contato com To-Sheng e seus amigos. Como era um pouco mais velho que eles, e de maior experiência, converteu-se em seu líder. A amizade entre Wang Tsai e To Sheng chegou a ser muito estreita, pois compartilhavam o mesmo zelo evangelistico.

No ano 1922, no lar de Wang Tsai celebraram pela primeira vez A Ceia do Senhor, sem sacerdote nem pastor, com a assistência só de três pessoas: Wang Tsai, sua esposa e To-Sheng. Sentiram tal gozo e liberdade, que começaram a fazê-lo com freqüência. Semanas depois uniram-se a eles a mãe de Nee e outros irmãos.

No final desse mesmo ano começou um verdadeiro avivamento entre os jovens, logo depois da visita à cidade da evangelista Li Yuen-ju. Quando ela se foi, os jovens ministros se encarregaram das pregações. Uns saíam para convidar pelas ruas, e o Espírito Santo atraía a um número cada vez maior de pessoas. A cidade de Fuchou, de 100.000 habitantes, foi grandemente comovida por este movimento espiritual.

Por causa da necessidade, tiveram que alugar uma casa maior. To-Sheng e outro irmão passaram a viver ali, para estar disponíveis para os jovens a toda hora. Em seguida começaram a sair 60 a 80 jovens para outros povos, para pregar, aproveitando os feriados e férias. Sua mensagem era ouvida e respeitada pelos rústicos camponeses, pois eles eram jovens cultos.

As primeiras lições espirituais

Nos dias de sábado, Nee ia ver a Srta. Barber para estudar a Bíblia e ser repreendido. Quando não havia nada nele que merecesse uma repreensão, ela fazia pergunta até encontrar alguma falha, e então o repreendia. Assim, ele recebeu suas mais importantes lições espirituais.

Nee era muito zeloso a respeito de fazer sempre o correto e o justo. Ele fazia parte de um grupo de sete obreiros, que se reuniam tadas as sextas-feiras. Muitas dessas reuniões se tornaram envolvidas por discussões entre Nee e Wang Tsai, quem, segundo Nee, insistia em impor a sua vontade só por ser o mais velho. Outros obreiros, geralmente tomavam partido por Wang Tsai. Nee se sentiu muitas vezes ofendido e procurou luz na irmã Barber. Ela, contrariamente ao que ele esperava, disse-lhe que devia sujeitar-se aos mais velhos, sem lhe dar maiores explicações. Esta dolorosa experiência se repetiu durante 18 meses, e concluiu quando ele se rendeu e aceitou ocupar o segundo lugar.

Nee o explica assim: «Eu era sempre o primeiro aluno tanto em minha classe como da escola. Também queria ser o primeiro no serviço ao Senhor. Por essa razão, quando me tornei o segundo, eu desobedeci. Disse repetidamente a Deus que aquilo era muito para mim. Eu estava recebendo muito pouca honra e autoridade, e todos se alinhavam com meu cooperador de mais idade. Mas eu adoro a Deus e lhe agradeço do profundo do meu coração por tudo isso. Foi o melhor treinamento. Deus desejava que eu aprendesse a obediência, por isso ele dispôs que eu encontrasse muitas dificuldades. Assim, com o tempo, fui enchido de alegria e paz em meu caminho espiritual».

Outra importante lição espiritual que Nee recebeu da srta. Barber foi enfatizar a vida antes que a obra, pois a Deus importa mais o que somos do que o que fazemos para ele. Também lhe advertiu sobre o perigo da popularidade, que se constitui em um instrumento de sedução para os jovens pregadores.

Um episódio familiar ocorrido neste tempo deixou um profundo ensino em Nee. Deus lhe mostrou que durante as férias deveria ir pregar numa ilha infestada de piratas. Aceitou o chamado, e fez os preparativos. Quando tudo estava preparado, e muitos irmãos se comprometeram, seus pais lhe opuseram. O que fazer? Consultou a Deus e sentiu que devia obedecer a seus pais. Embora era o desejo de Deus que fosse pregar na ilha, esse propósito ficava em Suas mãos para seu cumprimento. Como To-Sheng não se sentiu com a liberdade de dar a conhecer as razões de sua deserção, ganhou uma generalizada repulsa por parte dos irmãos. (Ele preferiu que sua reputação fosse abalada para que seus pais não fossem desestimados caso ele explicasse o motivo de ele não ter ido pregar.)

Mais tarde, pôde interpretar essa experiência objetivamente à luz da crucificação. A revelação da vontade de Deus pode ser clara, mas o cumprimento dessa vontade para nós pode ser em forma indireta. «Nossa estima de nós mesmos se alimenta e nutre porque dizemos: Eu estou fazendo a vontade de Deus! e nos leva a pensar que nada deve interferir em nosso caminho. Mas certo dia Deus permite que algo cruze em nosso caminho para rebater essa atitude. Do mesmo modo a cruz de Cristo, atravessa, não na nossa vontade egoísta, mas sim, embora pareça estranho, no nosso zelo e amor pelo Senhor! Isto é muito difícil de aceitar». De fato, naquele momento, não foi capaz de fazê-lo.

Quando Nee concluiu seus estudos no Colégio Trindade, aos 21 anos de idade, teve a satisfação de ser um dos dois melhores alunos – junto a Wang Tse –, e sobre tudo, de ter ganho um grande número de convertidos, tanto no colégio, como na cidade e seus arredores. A criação de uma pequena revista mimeografada, chamada "O Presente Testemunho", cuja primeira tiragem foi de 1400 exemplares, tinha contribuído para o crescimento espiritual dos convertidos e dos obreiros jovens.

Uma desilusão amorosa

Na mesma cidade de Fuchou vivia uma família de sobrenome Chang. O pai, Chang Chuenkuan era um querido amigo cristão, que chegou a ser pastor da Aliança Cristã e Missionária, e parente longínquo do pai de To-Sheng. Seus filhos eram da mesma idade e as duas famílias caminhavam muito bem. A pequena Pin-huei (conhecida também como Charity) andava sempre correndo atrás de To-Sheng. Em suas travessuras e entretenimentos todos os consideravam como o «irmão mais velho».

Quando os jovens cresceram, To-Sheng começou a interessar-se por Pin-huei, sua ex-companheira, que era bonita e inteligente. Entretanto, seus interesses diferiam muito. Enquanto Nee fazia a firme decisão de dedicar-se plenamente a pregação do evangelho, Pin-huei se converteu em uma jovem mundana. Quando Nee lhe compartilhava o evangelho, ela zombava de Deus e dele.

Um dia que To-Sheng lia o Salmo 73:25: «Fora de ti nada desejo na terra», o Espírito de Deus o compungiu porque ele não podia dizer o mesmo. «Sei que tem um desejo consumidor na terra. Deve renunciar ao que sente pela senhorita Chang. Que qualidades tem ela para ser a esposa de um pregador?». Sua resposta foi uma tentativa de fazer um pacto com o Senhor. «Senhor, farei algo por ti. Se quiser que leve suas boas novas às tribos que ainda não foram alcançadas, inclusive no Tibete, estou disposto a ir; mas não posso fazer isto que me pede».
Com este sentimento atado ao seu coração, lançou-se a pregar o evangelho com maior afinco. Por outro lado, Pin-huei se entregou a uma vida de estudo e compromissos sociais.

Pouco tempo depois, ao comprovar que ela não se interessava pelas coisas do Senhor, mas sim persistia em seguir o mundo, decidiu esquecê-la. Foi a sua casa, ajoelhou-se e confiou o assunto de forma firme e definitivamente a Deus, e escreveu sua poesia «Amor sem limites». Era 13 de fevereiro de 1922.



Seu amor, amplo, alto, profundo, eterno,

É na verdade imensurável,
Pois só assim pôde abençoar tanto
A um pecador como eu.
Meu Senhor pagou um preço cruel
Para me comprar e fazer-me dele.
Não posso senão levar a sua cruz com gozo
E lhe seguir firmemente até o fim.
A tudo eu renuncio
Pois Cristo é agora a minha meta.
Vida, morte, o que podem me importar?
Por que tenho que lamentar o passado?
Satanás, o mundo, a carne
Procuram me apartar.
Oh, Senhor, fortalece a sua frágil criatura,
Não aconteça que traga desonra ao seu nome!
(tradução livre)

Entretanto, Deus não havia dito a última palavra. Passariam ainda dez anos antes que este capítulo se fechasse.
Outras lições espirituais

Muitas lições espirituais foram aprendidas por Nee neste tempo. Por exemplo, recebeu um golpe no seu ego ao comprovar que muitas mulheres cristãs analfabetas, conheciam mais ao Senhor do que ele, apesar de todo o seu conhecimento bíblico. «Eu conhecia o livro que elas quase não podiam ler, enquanto que elas conheciam Aquele de quem fala o Livro».

Quanto ao seu sustento, também recebeu um ensino definitivo. Como já tinha deixado o Colégio, deveria pensar em como confiar em Deus para suprir suas necessidades materiais. As missionárias lhe tinham emprestado livros sobre as vidas de fé de Jorge Müller e Hudson Taylor, quem tinha crido inteiramente em Deus. A mesma Margaret Barber era um vivo exemplo disso. Assim, To-Sheng decidiu tomar o mesmo caminho.

Por este tempo teve também uma experiência especialmente dolorosa: por razões que não estão claras, foi excluído da comunhão com os irmãos. A decisão foi comunicada por carta quando ele estava longe. Como é natural, sua primeira reação foi de irritação, mas o Senhor falou em seu coração. Ao chegar à cidade, muitos irmãos lhe esperavam para solidarizar com ele, mas ele lhes disse que o Senhor não lhe permitia defender-se, que abandonaria a cidade para não provocar uma divisão, e que eles deveriam ficar quietos. Nesta situação ele aprendeu a quedar-se de maneira prática a tomar a cruz e seguir ao Senhor.

De um testemunho dado por Nee em outubro de 1936, pode-se deduzir que o motivo pôde ser a diferente ênfase em fazer a obra de Deus, o deles, era evangelístico, e o de Nee era a edificação das igrejas que iam nascendo. Um autor diz que a causa foi que Nee se opunha à ordenação de um deles por um missionário denominacional.

Seja como for, o certo é que, em pouco tempo, muitos deles se arrependeram de tê-lo excluído. Um deles disse: «Agimos muito nesciamente, mas possivelmente estávamos muito influenciados por ciúmes, pois o irmão Nee era muito mais dotado que nós».

Quando Nee era ofendido por alguém, não guardava rancor. Ao contrário, estava acostumado a dizer: «Os irmãos que pecam são como meninos que caem em um atoleiro com barro. Seus vestidos e cabelos se sujam. Mas dêem um banho neles e estarão novamente limpos. No futuro, todos os irmãos e irmãs serão pedras preciosas transparentes na Nova Jerusalém».

Outro forte golpe recebeu Nee em janeiro de 1925, quando foi sugerido por seu amigo Wang Tsai que não assistisse à convenção de Fuchou, porque as críticas à obra se centravam nele. Este pedido abalou sua paz em Cristo e o abateu numa profunda desilusão. Entretanto, recebeu do Senhor as seguintes palavras: «Deixa seus problemas comigo. Vai e prega as boas novas!».

Em uma dessas saídas para pregar, teve uma maravilhosa experiência com o povo de Mei-fuja, que Nee relata em seu livro «Sentem-se, Andem, Estejam firmes». Foi a esse povo com um pequeno grupo de seis jovens. Os vizinhos ali tinham anualmente uma celebração em honra ao seu deus Ta-wang. Eles confiavam tanto em seu deus, desta maneira não precisavam crer em Cristo. Um dos jovens cristãos desafiou ao deus Ta-wang, e Deus lhes deu uma maravilhosa vitória, humilhando ao ídolo e abrindo o caminho para a fé.

Um ministro preparado

Watchman Nee nunca freqüentou uma escola teológica ou Instituto bíblico. Mas estava consciente de que Deus queria servos preparados, por isso se dedicou a estudar e meditar na Palavra de Deus, e a ler extensamente tanto comentários bíblicos como biografias de destacados servos de Deus. Sua capacidade era tal, que podia compreender, e memorizar muito material de leitura em muito pouco tempo. Ele facilmente podia detectar os temas de um livro com uma rápida olhada.




Nee encontrou muita ajuda pessoal nos escritos de Andrew Murray e F. B. Meyer, sobre a vida prática de santidade e libertação do pecado. Também leu sobre Charles Finney, Evan Roberts e o avivamiento de Gales; pesquisou nos livros de Otto Stockmayer e Jessie Penn-Lewis sobre a alma e o espírito, e a vitória sobre o poder satânico. Seguindo o exemplo de Govett, Panton e Darby, Nee viu a necessidade de procurar uma forma mais primitiva de adoração que a oferecida pelas denominações, as que nesse tempo ofereciam já um triste espetáculo de frouxidão e religiosidade morta.



Por meio de M. Barber, Nee se familiarizou com os livros de Madame Guyon, D. M. Panton, Robert Govett, G. H. Pember, William Kelly, C. H. Mackintosh, entre outros.

No começo de seu ministério, ele investia um terço de seus ganhos em suas necessidades pessoais, um terço para ajudar a outros, e o terço restante para comprar livros. Ele fez um acordo com algumas livrarias de livros usados de Londres de que sempre que eles recebessem algum livro dos autores que lhe interessavam, que os remetessem imediatamente.

Ele chegou a ter uma coleção de mais de 3.000 volumes dos melhores livros cristãos. Quando ainda era um jovem, o quarto de Nee estava quase cheio de livros. Havia livro no chão, e uma pilha em cada lado da cama, deixando apenas espaço para deitar-se. Muitos comentavam que ele estava enterrado em livros. Entretanto, sua principal leitura sempre foi a Bíblia, que lia sistematicamente cada dia, até completar ao menos uma leitura do Novo Testamento ao mês.

Apesar de sua saúde ser precária, repartia seu tempo entre seus estudos, a obra, e a edição de sua pequena Revista cristã. A revista era publicada em forma irregular à medida que Deus lhe enviava dinheiro por meio de pequenas ofertas, e era distribuída sem peso. Seu nome começou a ser conhecido, e já recebia convites para dar seu testemunho e pregar.

Sua mensagem era muito nova para a sua época, pois expunha de forma singela e clara que o único caminho para Deus é por meio da obra consumada de Cristo. Muitos cristãos se esforçavam por obter a salvação com base nas suas próprias obras, o que, a princípio, não se diferenciava muito do budismo. Pregava também que para os crentes não era suficiente receber o perdão dos pecados e a segurança da salvação, pois só representava o ponto de partida. Era um evangelho para os crentes.

Nos próximos anos, o peregrinar espiritual de Nee o levou a ministrar a estudantes de Colégios e Seminários, a colaborar com a revista Luz Espiritual, dirigida por Li Yuen-ju, a trocar o nome de sua própria revista Avivamento, por o de O Cristão, e a estabelecer em Shangai a sua base de operações.

Enfrentando uma grande prova

Entretanto, o que abalou profundamente sua vida neste tempo foi um problema de saúde. Os problemas tinham começado em 1924 com apenas uma leve dor no peito. O médico que o examinou lhe disse que era uma tuberculose, por isso seria necessário um prolongado descanso. Passados alguns meses de cuidados especiais, a enfermidade não cedia. Um novo exame indicou que a enfermidade tinha avançado. O prognóstico do médico foi muito desalentador: «Tem tuberculose avançada em seus pulmões. Volte para sua casa, descanse e coma mantimentos nutritivos. É tudo o que pode fazer. Pode ser que melhore.» Todas as tardes tinha febre e pelas noites transpirava e não conseguia dormir. Para pregar tinha que realizar um imenso esforço, que o deixava exausto.

Tinha tido tantos planos, tantas esperanças de grandes coisas. Agora Deus lhe dizia que não. Começou a examinar-se. Surgiu nele um desejo de ser puro diante de Deus, confessando pecados, procurando assim uma explicação do que ele pensava ser o aborrecimento de Deus.

Quando retornou a Fuchou por causa de assuntos familiares, Nee teve uma experiência inesquecível. Por esses dias andava muito debilitado e doente; seu aspecto era bastante deplorável para um jovem como ele. Encontrou-se na rua com um antigo professor do Colégio Trindade. Por tradição, os estudantes chineses têm em alta estima os seus professores, voltando para eles para lhes agradecer cada vez que obtinham algum êxito. O professor o convidou para tomar chá, e censurou o seu fracasso: «Tínhamos um alto conceito de você na escola e tínhamos esperanças de que conseguiria algo importante. Não andou nem um centímetro para frente? Não progrediste? Não tem carreira, nada? Nee, por um momento, sentiu-se muito envergonhado. Mas de repente, segundo conta, «soube o que era ter o Espírito de glória sobre mim. Podia levantar os olhos e dizer: Senhor, te louvo porque tenho escolhido o melhor caminho. Para meu professor era um desperdício total servir ao Senhor Jesus; mas essa é a finalidade do evangelho: entregar tudo a Deus».

Mas sua enfermidade não cedia, e sua mãe, Fujo-ping teve a impressão, ao lhe ver, que lhe faltava muito pouco tempo. Nesses dias recebeu nova luz em 2 Corintios, a carta autobiográfica de Paulo, sobre o vaso de barro, que lhe animou e consolou em sua própria fraqueza.

Dentro das forças que escassamente possuía, se dedicou a tarefa de terminar um livro que tinha começado pouco tempo antes, sobre o homem de Deus, que descrevia em forma conscienciosa o espírito, alma e corpo. Logo depois de escrever alguns capítulos, o abandonou por considerá-lo muito teórico; mas, em vista do pouco tempo que restava, decidiu tentar terminá-lo. Parecia-lhe que seria uma perda não compartilhar a respeito das suas experiências espirituais antes de morrer.

Graças à oração persistente e o apoio de numerosos irmãos e irmãs, conseguiu concluir em quatro meses o primeiro volume do Homem Espiritual. Para escrever, sentava-se em uma cadeira de encosto alto e apertava seu peito contra a escrivaninha para aliviar a dor. Da irmã Ruth Lee recebeu ajuda para a revisão literária do livro, e o publicou em Shangai. Alguns anos depois, em junho de 1928, Nee conseguiu terminar o restante.

Foi o primeiro livro que escreveu e o último, pois todos os seus outros livros são recopilações de mensagens orais. Mais tarde, Nee não aceitou fazer novas reimpressões do Homem Espiritual, porque lhe parecia muito perfeito e sistemático. Pensava que os leitores corriam o perigo de um entendimento intelectual das verdades, sem sentir a necessidade do Espírito Santo. Além disso, a parte sobre a luta espiritual enfatizava só o aspecto individual, porém mais tarde teve mais luz para ver que era um assunto do Corpo de Cristo e não do indivíduo.

Depois de concluído o livro, Nee orou a Deus: «Agora permite a seu servo partir em paz». Nesses dias, sua enfermidade piorou a tal ponto que pelas noites suava copiosamente, e não conseguia dormir. Era apenas pele e ossos. Sua voz estava rouca. Algumas irmãs se alternavam para atendê-lo. Uma enfermeira que o visitou disse: «Nunca vi um doente com uma condição tão lamentável». Um irmão telegrafou às igrejas de diferentes lugares, avisando que já não havia esperança, que não precisavam orar mais por ele.

Enquanto orava ao Senhor em seu leito de enfermidade, Nee recebeu três palavras do Senhor: «O justo viverá pela fé» (Rom. 1:17); «Porque pela fé estão firmes» (2 Co. 1:24); e «Porque por fé andamos» (2 Co. 5:17). Nee creu que essas palavras significavam sua saúde. Assim, lutando contra sua incredulidade, e contra os sussurros de Satanás, levantou-se com grande dificuldade, pôs sua roupa que fazia quase seis meses que não usava, e se pôs em pé, repetindo as palavras recebidas.

Sentiu que o Senhor lhe dizia que fosse à casa da irmã Ruth Lee. Ali, a vários dias, havia um grupo de irmãos e irmãs orando e jejuando por sua saúde. Quando abriu a porta e viu a escada lhe pareceu a mais alta que tinha visto em sua vida (pois estava em um segundo piso). «Disse a Deus: –conta Nee– «Ainda que me disse que ande, farei-o, ainda que a conseqüência seja a morte. Senhor, não posso andar; por favor, sustente-me com a sua mão». Apoiando-me no corrimão desci degrau por degrau, novamente suando frio. À medida que descia seguia clamando «andar por fé», e a cada degrau orava: «OH Senhor, você é quem me faz caminhar». À medida que descia os 25 degraus, era como se estivesse, pela fé, com minhas mãos nas mãos do Senhor. Ao chegar ao final, senti-me fortalecido e caminhei com rapidez para a porta do fundo. Ao chegar à casa da irmã Lee, golpeei a porta como fez Pedro (At. 12:12-17), e ao entrar, sete dos oito irmãos e irmãs puseram seus olhos em mim, sem fazer nem dizer nada, e a seguir, todos se sentaram ali quietos por quase uma hora, como se Deus tivesse aparecido entre os homens. Ao mesmo tempo, eu me senti cheio de ações de graças e de louvores ao Senhor. Então lhes relatei tudo o aconteceu no transcurso de minha cura. Cheios de alegria até o júbilo no espírito, louvamos em alta voz a maravilhosa obra de Deus... No domingo seguinte, falei três horas de uma plataforma».

Mais tarde confessaria que durante aqueles longos dias de prostração, ele recebeu luz para ver as diretrizes que deveria ter a obra que Deus lhe tinha chamado para realizar: obra de literatura, reuniões para «vencedores», edificação das igrejas e treinamento de jovens.
Entretanto, mesmo quando foi curado milagrosamente da tuberculose, padeceu de uma angina de peito por quarenta e cinco anos, da qual não foi curado. Freqüentemente, ele sofria de fortes dores, até no meio das pregações, que lhe obrigavam a apoiar-se no púlpito. Deus permitiu dessa maneira que ele vivesse em contínua dependência de Deus para desenvolver o seu ministério.

Crescimento e influências

No princípio de 1928 Nee arrendou uma casa na rua Wen Teh Li, em Shangai, que foi a sede da obra a partir de então. Ali teve lugar nesse mesmo ano a primeira Conferência de Shangai, em um pequeno salão para 100 pessoas.

Em maio de 1930 teve a tristeza de saber que Margaret Barber tinha partido com o Senhor. Muitas vezes depois, Nee teria que reconhecer que dela aprendeu as mais valiosas lições espirituais em sua vida. Na Bíblia que lhe legou estava a seguinte inscrição: «OH Deus, me dê uma completa revelação de ti mesmo», e em outro lugar: «Não quero nada para mim mesma, quero tudo para o meu Senhor». Ela morreu tal como sempre viveu: sem um centavo em sua bolsa, mas rica em Deus. «Como pobre, mas enriquecendo a muitos ...»

Outros homens de Deus, estrangeiros, iriam ser um grato alento e edificação para Nee. Pimeiramente foi C. H. Judd, e depois Thornton Stearns. Mais tarde também o seria Elizabet Fischbacher.

T. Stearns era catedrático da Universidade de Chefú, que tinha um grupo de oração e estudo bíblico composto por professores e alunos dessa universidade. Nee foi convidado em 1931 a dirigir uma série de reuniões para eles, com grande êxito. Muitos jovens se agregaram à fé.

Comunhão com os Irmãos

Em novembro de 1930, Nee e os irmãos conheceram Carlos R. Barlow, e através dele, os principais expoentes do grupo dos Irmãos de Londres (da facção «exclusivista»). Entre eles surgiu uma entusiasta comunhão, que originou em uma viagem de Nee a Londres e aos Estados Unidos.

Na Inglaterra foi muito bem recebido, e com estranheza, por tratar-se de um jovem chinês que mostrava grande maturidade espiritual. Nee teve grande admiração por sua erudição bíblica, mas se impacientou ao ver sua arrogância e sua inclinação pelos longos debates teológicos.

A comunhão ficou impedida rapidamente pelo excessivo zelo dos Irmãos, que se incomodaram porque Nee participou em Londres da Mesa do Senhor com outros irmãos. Isto trouxe consigo uma longa e triste série de conversações, que derivaram, posteriormente, na ruptura dos Irmãos.

O dia do gozo

Em 1934 concluiu a longa espera de Nee por uma esposa. Para sua surpresa, Chan Pin-huei voltou-se para o Senhor em Wen Teh Li, depois de acabar seus estudos de inglês na Universidade de Yenching. Era uma jovem muito culta, formosa, e agora, muito humilde e temente a Deus. Depois de longas considerações e muita oração, decidiu pedi-la em matrimônio. A oposição não foi pequena, tanto de alguns familiares dela –por casar-se com um «pregador desprezado»–; como dos irmãos, que quase o idolatravam, ao julgar que um homem de oração como ele não deveria preocupar-se com coisas tais como sexo e a procriação.

Em 19 de outubro desse ano, depois de concluir a quarta Conferência de Vencedores em Hangchou, casaram-se, no mesmo dia do aniversário matrimonial dos pais de Nee. Deram graças a Deus rodeados de irmãos, e cantando o hino que escreveu a sua amada dez anos antes.

(Continua...)

Fonte: http://www.aguasvivas.ws/revista/41/espigando1.htm